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O outro, pra que o outro?

Luiz Carlos Merten

27 de fevereiro de 2017 | 14h43

Ainda estou digerindo o Oscar e suas trapalhadas, mas confesso que gostei muito de duas coisas. Uma foi a vitória de O Apartamento, de Asghar Farhadi, o filme certo para o momento, e eu teria ficado p… se o favoritismo de Toni Erdmann se confirmasse e o filme de Maren Ade tivesse ganhado. Não creio que O Filho de Saul, no ano passado, fosse o grande filme celebrado por tanta gente e, curioso, parece que o vi há décadas, em outro tempo, mas ali ainda era possível uma elaboração intelectual. Toni Erdmann é um caso de rejeição pura e simples. Um filme de uma provocação boba e superficial, sem pathos. Parabéns aos votantes da Academia por haverem escolhido O Apartamento como melhor filme estrangeiro. A outra coisa que gostei se refere ao mestre de cerimônias Jimmy Kimmel, e de maneira geral acho que já deixei claro que não o aprovei no papel. Humor involuntário, observação séria, piada, Kimmel foi apresentar Isabelle Huppert, logo no começo. Grande atriz francesa, indicada por Elle, um filme que não vi, disse ele, como a maioria de vocês – o público do Dolby Theatre -, mas que deve ser bom, porque, afinal, está no Oscar. Acho que esse gap revela tudo, mesmo do segmento mais tolerante do establishment norte-americano. O desinteresse pelo outro. Por que perder tempo vendo Elle? Donald Trump apenas radicaliza esse isolamento. Ele quer tornar a América grande de novo, e na mente distorcida dele isso significa isolar-se mais e mais. A América só precisa dos americanos. Não reli o post que escrevi no calor da hora, de madrugada, ao chegar em casa. Mas disse que, com certeza, Trump ia deitar e rolar no twitter hoje pela manhã. Não sei se isso ocorreu ou se ele ignorou, achando que não vale a pena bater em gato morto. Mas eu, ao acordar, pensei que, na verdade, alguém devia falar com Isabelle Huppert para saber a impressão dela de tudo aquilo. Isabelle é mordaz, cruel mesmo. Gostaria de ouvir a versão dela, contando o imbróglio armado por Warren Beatty e Faye Dunaway ao anunciar o Oscar de filme para La La Land, quando o vencedor era Moonlight – Sob a Luz do Luar.

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