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O Oscar 2020, importantíssimo. Por que?

Luiz Carlos Merten

10 de fevereiro de 2020 | 10h19

Estou de ressaca, e não porque meu favorito no Oscar 2020 tenha perdido, mas porque tenho a sensação de haver assistido ao Oscar mais importante da minha vida, senão da história da Academia. Por princípio, não sou a favor de dividir filme e direção, mas acho que, neste ano, em especial, não faria sentido. Os dois principais filmes da disputa – o Bong Boon-ho, Parasita, e o Sam Mendes, 1917 – baseiam-se em princípios de mise-en-scène de um rigor absoluto. Bong criou o cenário da casa em estúdio para que nenhum elemento externo pudesse influir em sua construção dramática. Sam tinha aquela absurda filmagem a céu aberto, coreografando… A guerra! Aviões, homens, trincheiras, explosões. Claro que, em ambos os casos, por mais ousados que fossem os procedimentos técnicos e estéticos, tenho de admitir que 1917, por mais belo que seja, se inscreve na vertente de um humanismo mais tradicional, e Parasita tenta dar conta do estado do mundo. Talvez só tenha me dado conta, durante a cerimônia, de que, no limite, os dois filmes baseiam-se em conflitos opostos. Os dois soldados atravessam o campo de batalha para cumprir, mesmo com risco da própria vida, uma ordem. Os choques entre os integrantes das três famílias – a rica, a pobre e o marido da governanta escondido no subsolo – desenvolvem uma outra ideia no filme da Coreia do Sul, a legitimidade da revolta e da explosão social face à desigualdade que caracteriza o modelo econômico dominante. A desordem? Guedes, Bolsonaro, Trump não estão governando para todos, mas para os ricos, os mais ricos. O sistema, perversamente, baseia-se na concentração da riqueza, em que os mais pobres pagam a conta dos ricos. Isso não é nenhuma demagogia dizer. É a concepção do f…-se. Desde o tapete vermelho, e depois, na abertura, quando os apresentadores investiram contra o Partido Democrata e a Academia – criticando o reduzido e até nulo número de concorrentes negros e mulheres -, o sentimento de protesto se fez presente na festa de ontem. Natalie Portman usou aquele vestido com nomes de diretoras que não foram indicadas, mas não encontrei em lugar nenhum quem são e fiquei curioso. Joaquin Phoenix fez aquele discurso forte. Vi nisso tudo mudanças de que ainda não consigo dar conta. Bong fez história, não ganhando o Oscar de direção, mas o de melhor filme e melhor filme internacional. É inédito. Ao mesmo tempo, sua vitória como diretor soma-se às de todos aqueles mexicanos – três, um ganhando duas vezes – nos últimos anos. Há uma crise de criatividade no cinema hollywoodiano? Brad Pitt, em seu discurso de agradecimento, disse que Hollywood fica muito melhor com seu diretor, Quentin Tarantino, cuja principal característica, realçou, é a originalidade. Mas então, se a própria Academia identifica a crise, e me parece claro que sim, por que não colocou Joias Brutas, dos Safdie Brothers, do qual gostei muito – mais do que de qualquer Martin Scorsese recente, pegando carona no fato de que ele é produtor -, entre os indicados? A todas essas, os prêmios das guilds, os sindicatos, só valeram para os atores em 2020. É muita coisa ocorrendo. Precisamos refletir.

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