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O olhar do pequeno Joey

Luiz Carlos Merten

19 de janeiro de 2014 | 11h14

Confesso que, por mais interessado que estivesse no SAG, não consegui assistir a cerimônia (sorry, mas estou sem o acento de crase). Vi uns pedaços, apenas. O restante do tempo estava grudado no canal que exibia Os Brutos Também Amam. Shane! Sempre houve uma controvérsia envolvendo o western mítico de George Stevens. Os críticos franceses, que talvez tenham sido pioneiros no reconhecimento do gênero, amavam a pureza de Anthony Mann, a simplicidade de Budd Boetticher. Mas Shane possui os fundamentos do western clássico. Alan Ladd faz o arquétipo do herói. O pistoleiro que chega não se sabe de onde e carrega o peso do passado. Clint Eastwood tomou-o como modelo em O Cavaleiro Solitário/The Pale Rider. Por um momento, confrontado com a experiência familiar de Van Heflin – e apaixonando-se secretamente pela mulher dele, Jean Arthur -, Shane vislumbra a possibilidade de criar raízes, mas o passado volta, ele executa sua missão, matando o maior vilão do Oeste – o Wilson de Jack Palance -, e parte. É curioso que, no começo, ele chegue ao vale descendo a montanha e, no desfecho, faça o caminho inverso, subindo a montanha de novo. Stevens era religioso. Sempre houve a suspeita de que, para ele, Shane fosse uma paráfrase bíblica. O Cristo que vem redimir os pecados dos homens. É difícil explicar, mas Os Brutos Também Amam/Shane, para aqueles que o cultuam – como eu -, não é só um filme. Como Rocco e Rastros de Ódio, faz parte do meu panteão. É uma rara experiência estética, humana. E não só minha. Paulo Perdigão escreveu um livro – Shane/Western Clássico – e, em meados dos anos 1980, na trilha do Woody Allen de A Rosa Púrpura do Cairo, utilizou-se da ferramenta das novas tecnologias para ‘corrigir’ o desfecho. Perdigão nunca se conformou de ver Shane partir, chamado pelo garoto, que somos nós, o público. Não faço a menor ideia de qual terá sido o seu final, que ele fez exibir, secretamente, para amigos. Sérgio Augusto deve saber. Aliás, não leio muito o que os outros escrevem, mas, as vezes, abro exceções. O texto de Sérgio Augusto sobre Azul É a Cor Mais Quente, no Caderno 2. Tentei ler, já que são filmes importantes para mim, coisas que se escreveram sobre Azul e Um Estranho no Lago. Parei. Não deu. O texto de Sérgio Augusto sobre Abdellatif Kechiche está na altura do filme. Aliás 2 – a associação brasileira de críticos divulgou sua lista de melhores do ano. Meio óbvia – O Som ao Redor, o melhor nacional; Tabu, o melhor estrangeiro. Ao contrário da maioria dos críticos, revi muito, desde Berlim, o longa de Miguel Gomes, umas seis ou sete vezes e cada vez mais me convenço de que a parte colonial é esplendorosa,. mas a contemporânea, inicial, é o ó. Mal encenada, mal interpretada. Cheguei até a tentar articular um discurso no qual a contemporaneidade é asfixiada pelo esplendor passado, mas achei que era punheta (desculpem), e desisti. Volto a Shane. George Stevens, da mesma forma que Delmer Daves, agiu como um documentarista do Velho Oeste, de olho na verossimilhança. Lembro-me de uma entrevista dele na antiga Filme Cultura, dizendo que havia feito sua trilogia -Um Lugar ao Sol/Os Brutos Também Amam/Assim Caminha a Humanidade -, não com sentimento intelectual, mas baseado no que conhecia e sabia sobre as pessoas. As cenas de Shane – Alan Ladd e Van Heflin martelando o tronco sob o olhar do menino; o funeral; a briga a socos; as trocas de olhares entre Alan Ladd e Jean Arthur; toda a cena final, desde a chegada de Ladd ao saloon, precedendo o duelo. Aquilo não é um filme; é um monumento. Stevens, querendo refletir sobre o mito – a mitologia do Oeste -, constroi o filme no olhar de Joey. Sou um velho de quase 70 anos. Volto a ser menino de novo, cada vez que revejo Shane. Brandon de Wilde! Filho de uma atriz e um diretor de teatro, Brandon estreou com 8 anos, no palco. Repetiu o papel no cinema – em Cruel Desengano, Member of the Wedding, de Fred Zinnemann. Foi Joey e o irmão de Warren Beatty em O Anjo Violento, de John Frankenheimer. As pessoas nem devem se lembrar de que existiu – foi também o irmão de Paul Newman em Hud, o Indomado, de Martin Ritt. Brandon de Wilde terminou esquecido porque James Dean encarnou o estereótipo do jovem transviado, e não digo isso de forma pejorativa. Jimmy exteriorizava sua violência interior e, no processo, destruía todos ao redor. Brandon parecia consumido por seu tormento. Tinha aquele olhar ‘puro’. Parecia frágil. Brandon levou uma vida errática nos anos 1960. Fez menos filmes, mais teatro. Casou-se e descasou. Em 1972, a segunda mulher estava no hospital, ele correu para lá. O carro foi abalroado por um caminhão. Brando de Wilde morreu na hora. Tinha 30 anos. Seus amigos Gram Parsons e Emmylou Harris lhe dedicaram uma canção – In My Hour of Darkness, Na Minha Hora de Escuridão. ‘Once I knew a young man/went driving through the night/miles and miles without a word,/but just his high-beam lights./Who’ d ever tought they’d build/such a deadley Denver bend;/to be so strong, to take so long/ as it would till the end.’ Bonito, não? Na minha cabeça, até a morte prematura de Brandon de Wilde faz parte da aura do filme.

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