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O olhar de Nanini

Luiz Carlos Merten

19 de fevereiro de 2019 | 09h31

De volta. E, depois de dias resistindo bravamente ao frio, desabei na volta. Pode ter sido a pressurização. Já no voo de Berlim para Amsterdam, o nariz começou a escorrer como torneira. E a coisa só piorou entre Amsterdam e Garulhos. Tosse, catarro. Cheguei numa petição de miséria. Cheguei, ontem, no início da noite – isso também deve ter ajudado, os voos longos diurnos sempre me deixam exaurido -, mal consegui dar uns telefonemas, inclusive marcando médico para daqui a pouco, deitei para aliviar a perna, peguei no sono, uma noite agitada, e cá estou eu de volta. Durante a Berlinale, em alguns momentos mais agitados, pensava. Quero a minha vida de volta. E, agora que a tenho, já estou com saudade da agitação do festival. É a minha droga. Mas gostei de voltar. Desci para o café na Regina, na lanchonete em frente. Reencontrei o porteiro, o Diego, com sua alegria que seria insuportável, se não fosse tão genuína, e cruzei com todas aquelas pessoas que passeiam com seus cachorros. A famosa fidelidade canina. Alguns me reconheciam. vinham me cheirar com o rabo abanando, e teve um que chegou a se atirar no chão, com a barriga para cima, para receber meu carinho. De volta! Tanta coisa que ainda quero falar sobre a Berlinale, os filmes que vi, os livros que comprei. Não sou contra a mudança e até tentei ler um livro no I-não sei o quê, mas não deu. Sinto falta da coisa física, de folhear as páginas. Durante toda a minha vida, tive sempre uma relação sagrada com os livros – a cultura! Vocês vão me achar louco, mas nunca, aos 73 anos, indo para os 74 – espero chegar -, rasurei uma página sequer. Nenhuma anotação, nenhuma palavra ou frase sublinhada. Isso muito complicou minha vida. Quando queria voltar a algum detalhe, tinha de procurar, reler trechos inteiros, mas isso sempre me deu prazer – a (re)descoberta. Acho que foi isso que forjou o tipo de jornalismo que faço – só gravei as entrevistas para os livros da Coleção Aplauso, mas aí era outra coisa, e havia a Denise para transcrever as fitas. (Tem uma história sobre isso que um dia ainda conto.) Mas, enfim, na volta queria ler, e não encontrei na seleção da KLM os títulos que me interessaram na ida, quando voei Air France. Lia, mas a concentração era difícil, a cabeça estava oca. E, embora houvesse uma divisão separando meu companheiro de assento, eu conseguia ver sua tela e os filmes a que ele não parou de assistir. Missão Impossível – Efeito Fallout, Han Solo, Bohemian Rhapsody. O voo terminou antes que acabasse esse último, e ele não viu o Live Aids Concert. Depois de mais de 12 horas, puxei assunto e conversamos uns 20 minutos, enquanto o avião taxiava e até que as portas se abrissem. Não, ele não havia visto o Bryan Singer. Exortei- a ver o final. Mas, enfim, para dar um fecho a esse post que já está enorme, rever sem som as cenas dos filmes citados foi muito interessante. Aquela luta de Tom Cruise com Henry Cavill é antológica, mas o que me bateu, vendo as ‘orgias’ de Freddie Mercury, foi algo que teve a ver com a experiências de alguns filmes brasileiros em Berlim. Muita gente reclamou que o sexo era tímido no Bryan Singer e que, sendo o diretor gay assumido, poderia ter dado mais vazão ao imaginário LGBT. Rami Malek já ganhou os principais prêmios do ano, só falta acrescentar o Oscar no domingo. Singer está quieto para que as denúncias de assédio contra ele não respinguem em seu astro (e já foi penalizado o suficiente, como diretor, ao ficar fora das premiações. É como se Bohemian Rhapsody tivesse sido feito itself.) As cenas que o Singer edulcora são arregaçadas em A Rosa Azul de Novalis, de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro, e Greta, de Armando Praça. Pênis eretos, masturbação, sexo anal, oral, tudo explícito. Não sei se esse Brasil evangélico, homofóbico, racista, tem condições de assimilar esses filmes e o que, afinal, existe de denso, doloroso e profundo por trás dessas provocações. Escrevi a palavra e parei, por alguns segundos, refletindo sobre ela. Porque não são provocações. Isso é realismo, o que as pessoas preferem não ver. A verdadeira provocação de Novalis está na metafísica do ânus, no movimento que faz com que Marcelo Diorio encontre Deus no seu c… Ou então a audácia de Armando Praça, recriando o plano mais famoso da carreira da divina Garbo, o close-up em seu rosto que encara o vazio na proa do navio de Rainha Christina, de Rouben Mamoulian. Greta termina – f…-se se acharem spoiler – com Nanini encarando a câmera. Um plano longo, ele fica firme. No que pensa – tudo? Nada? O olhar de Nanini. Foi uma das minhas experiências inesquecíveis, viscerais nesta Berlinale.

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