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O olhar de Michelangelo

Luiz Carlos Merten

27 Abril 2017 | 12h15

Foi na segunda vez que fui ao Japão, na junket de Homem-Aranha, o 3. Sam Raimi! Havia sido um dia tenso para mim. Morrera Ingmar Bergman e tive de fazer o necrológio, antes de embarcar. Meu voo era via Milão. Chego lá e fazendo hora para a conexão para Tóquio descubro que… Como? Morreu Michelangelo Antonioni? Os dois? Sim, por uma diferença de horas. Tive um choque. Antonioni foi, de todos esses diretores mitológicos, o único que conheci e entrevistei. Falo dos italianos – Luchino Visconti, Federico Fellini. Conheci Suso Cecchi D’Amico, a roteirista de Visconti e com ela tive uma ligação calorosa que durou até a morte de Suso. Ligava para a casa dela, conversava. Um dia, o telefone não atendeu mais. Conheci e entrevistei Alain Resnais, Jean-Luc Godard, Eric Rohmer, Jacques Rivette, Claude Chabrol. Amei o Rivette, como amei o filme dele, Ne Touchez pas La Hache, com Guillaume Dépardieu, mas gostei mais ainda de Chabrol. Os grandes filmes de ‘Claude’, por volta de 1970, estão no meu panteão – A Mulher Infiel, A Fera Deve Morrer e O Açougueiro -, mas melhor que tudo foi o próprio Chabrol. Nunca vi diretor mais feliz, falando de cinema e comida com verdadeira volúpia. É um privilégio ter conhecido todas essas figuras, e outras, sei. Mas quero falar de Antonioni. Quando o conheci, em São Paulo, Antonioni já tivera a trombose. Seguia dirigindo, mas, para um autor que fizera da solidão e da incomunicabilidade suas matérias, a dificuldade de se comunicar, como consequência da doença, era uma coisa certamente dolorosa. Jantei com Antonioni, fui ao cinema com ele, e o filme, no antigo Gazeta, era Lobo, de Mike Nichols, com Jack Nicholson, que havia sido seu ator em O Passageiro: Profissão – Repórter. Entrevistei – one a one – Jack Nicholson, Harrison Ford, Steven Spielberg! Mas cheguei tarde demais, hélas, para Glauber. Toda essa conversa é para lembrar que começou ontem, no CCBB, uma retrospectiva completa de Antonioni. Vai até 22 de maio. Entre 11 e 17, abre-se uma seção do evento no Cinesesc. Todo Antonioni, desde o curta documentário Gente del Po, de 1943, considerado precursor do neo-realismo – como Obsessão, de Visconti, no ano anterior -, até Lo Sguardo di Michelangelo, de 2004, três anos da morte dele, aos 94 anos. Antonioni tinha 38 anos – nasceu em 1912 – quando fez seu primeiro longa. Cronaca di Un Amore, que no Brasil se chamou Crimes d’Alma, não foi imediatamente aceito porque já propunha uma ruptura com o neo-realismo de fundo social com sua análise psicológica da personagem de Lucia Bosè. Antonioni não era o único. Os anos 1950 foram de transformação no cinema italiano. Visconti partiu para o melodrama e o grande afresco histórico de Sedução da Carne e, antes dele, Fellini, como Antonioni, mas em outro sentido, também lançou os fundamentos do neo-realismo ‘interior’. Roberto Rossellini gerou Godsard com a desdramatização do roteiro de Viagem na Itália, mais tarde assimilado por meio de seu título original, porque, quando lançado, era Romance na Itália. Antonioni permaneceu muito ativo durante toda a década de 1950 e fez filmes que repercutiram cada vez mais – As Amigas, livremente adaptado de Cesare Pavese, com um elenco de mulheres sensacional (Eleonora Rossi Drago À frente), e O Grito, que se destaca dos demais por dois fatores, dois deslocamentos. O protagonista – um homem, não mulher, como habitualmente -, é um operário. Aldo/Steve Cochran. O grito é de 1957 e fecha um ciclo. Dois anos depois veio A Aventura, primeiro filme com Monica Vitti, primeiro filme da trilogia da solidão e da incomunicabilidade. L’Avventura foi vaiado em Cannes, em 1960, no ano em que Fellini levou a Palma de Ouro, por A Doce Vida. Dois filmes faróis da modernidade, mas eu ainda sou mais A Aventura. Lea Massari desaparece, simplesmente sai de cena. Monica Vitti e Gabriele Ferzetti passam o filme procurando por ela. O que ocorreu com Lea? Dois anos depois, no fecho da trilogia, com O Eclipse, vem uma possível resposta. Em L’Eclisse, é todo o gênero humano que desaparece. Na memória do Festival de Cannes, você encontra a polêmica coletiva de A Aventura. No limiar dos anos 1960, refletia Michelangelo, o homem moderno vive divido entre a ciência que aponta para o futuro, as estrelas, e uma moralidade ainda arcaica quje o mantém atado ao passado. A crise dos sentimentos. Solidão. Incomunicabilidade. O deslumbrante final de A Aventura. O choro de Ferzetti, o gesto quase imperceptível de Monica. Aquela partitura de Giovanni Fusco. O gênio de Antonioni, seu olhar. Vou continuar o post depois.