As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O olhar de Antonioni (2)

Luiz Carlos Merten

27 Abril 2017 | 15h27

Se você procurar o cartaz do Festival de Cannes de 2009 na rede verá a imagem de Monica Vitti em A Aventura. Ela está de costas. Olha uma paisagem desolada. Veste um tubinho bem básico, preto. Walter Hugo Khouri, que carregava o título de (Michelangelo) Antonioni brasileiro – antes, nos anos 1950, tinha sido o (Ingmar) Bergman brasileiro -, desesperava-se. Dizia que os figurinos de Monica ainda serão modernos daqui a 100 anos, se existir cinema, enquanto ele tinha de vestir suas estrelas da Boca do Lixo com aquelas roupas de liquidação, que eram o que cabia nos orçamentos da Galante Produções (e depois, elas iam tirar a roupa mesmo…) A versão restaurada de A Aventura foi a cereja do bolo na seleção de Cannes Classics há oito anos. Revi o filme, em suntuoso preto e branco, na Salle Luis Buñuel. A Aventura é de 1959, mas passou em Cannes em 1960. O Eclipse é de 1961, mas passou em 1962 – perdendo a Palma de Ouro para O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte. Existe a história de que o brasileiro só ganhou porque o júri não conseguia se decidir entre os muitos grandes da competição daquele ano (Antonioni, Buñuel, Robert Bresson, Michael Cacoyannis etc). E daí? A história dos grandes festivais é cheia desses impasses. Entre A Aventura, que abre a trilogia da solidão e da incomunicabilidade, e O Eclipse, que a encerra, veio A Noite, premiado em Berlim. Jeanne Moreau caminha toda a cidade antes da festa, para expressar seu vazio existencial. Nada acontece. Nada? Fiz essa semana uma pesquisa na rede sobre Elon não Acredita na Morte, antes de falar com o diretor e o ator. Nem me lembro mais o que estava buscando – alguma coisa na ficha técnica. Encontrei uma crítica cujo título me atraiu a atenção. Como Elon, Rômulo Braga caminha muito no filme. O geniozinho, digo, o crítico, concluiu que o filme daria um bom curta e toda aquela deambulação era encheção de linguiça. Tinha gente que também devia pensar isso da trilogia de Antonioni. Monica Vitti e Jeanne Moreau caminham… Mas há ali uma tensão, uma angústia. Eros ferido, Eros morto. A humanidade desaparece no desfecho de O Eclipse. Ficam só os objetos, e os lugares vazios. Muitos filmes de Antonioni terminam em auroras que não são libertadoras. Aquele termina num entardecer. As luzes se acendem. A cena deve estar no YouTube. Na sequência da trilogia, Antonioni fez O Deserto Vermelho, e ganhou o Festival de Veneza. A cor! Monica Vitti, a personagem chama-se Giuliana. Anda com o filho. É a mais atormentada – neurótica? – das mulheres de Antonioni. Giuliana precisa de algo concreto. Encontra um operário que come. Ela avança sobre o sanduíche dele. Antonioni filmava o vazio, mas o embalava bem. Monica Vitti, Jeanne Moreau. E os atores – Ferzetti, Marcello Mastroianni, Alain Delon, Richard Harris. O Deserto Vermelho marcou um momento de não retorno de Antonioni. Um impasse. Ele se cansou de encher linguiça falando da situação ‘ontológica’ – a crise – da burguesia. Partiu para o mundo. Foi fazer Blow Up/Depois Daquele Beijo na Swinging London; Zabriskie Point na ‘América’ dos campi em chamas, após o Maio de 68. No Brasil, a censura dos militares implicou com Zabriskie. Achou o filme subversivo. Antonioni explode o refrigerador cheio – abaixo o consumismo. Comuna, subversivo! Provocador, Antonioni filmou a China (de Mao). E fez O Passageiro – Profissão: Repórter, na Espanha e na África. O célebre plano sequência em que a câmera passa pelas barras da janela, na verdade, a janela foi serrada. Antonioni não pensava apenas o indivíduo e a sociedade. Pensava o cinema, sua arte. Um realismo psicológico, interior, como só a literatura parecia poder fazer – mas ele conseguiu. Antonioni foi um indagador/investigador da linguagem. O Mistério de Oberwald, seu último filme com Monica Vitti. Feito em vídeo, e livremente adaptado de A Águia das Duas Cabeças, de Jean Cocteau. E ele continuou filmando – Identificação de Uma Mulher, já doente, Além das Nuvens, Eros. Em Identificação, o ator é o cubano do cinema italiano, Tomas Milián, que morreu há pouco. Faz um cineasta. É abandonado pela mulher, pela amante jovem. Seu nome é Niccolò e numa cena ele se desculpa pelo que define como ‘deformação profissional’, ao levar sua acompanhante a um lugar ermo, deserto, um desses lugares que Antonioni sempre gostou de mostrar, durante as deambulações de seus (suas) personagens. O último Michelangelo é o do ‘Sguardo’. Um Michelangelo olha o outro. Antonioni filma a Igreja de San Pietro in Vincoli, em Roma, onde o outro Michele, Buonarrotti, esculpiu seu grandioso Moisés, que decora o túmulo do papa Júlio II. Sei que me exponho, ao escrever uma coisa dessas. Nunca fui muito felliniano, por mais que aprecie certos momentos seminais de Federico. Nem rosselliniano. De toda a extensa produção de Roberto, gostar, gostar mesmo, só de Il Generale della Rovere/De Crápula a Herói, com a maior interpretação de Vittorio de Sica, fazendo um personagem fordiano. A grandeza dos derrotados. Por temperamento, e por escolhas estéticas, sempre fui mais Visconti, Francesco Rosi, Dino Risi. E Antonioni. Eu amava Michelangelo e, até hoje me pergunto como ele, com a restrição da linguagem e dos movimentos, conseguiu filmar daquele jeito a beleza e sensualidade de Kim Rossi Stuart e Inès Sastre em Al di Là delle Nuvole. Lo Sguardo di Michelangelo. O segredo estava no seu olhar de mestre. Não é preciso dizer que a retrospectiva de Antonioni no CCBB e no Cinesesc é a peregrinação de todo cinéfilo que se preze.