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O ogro Depardieu em A Chance de Fahim

Luiz Carlos Merten

13 de janeiro de 2020 | 09h08

O jovem Gerard Depardieu era despudoradamente livre, e belo. Basta lembrar de suas cenas de nudez com Patrick Dewaere e Miou-Miou em Les Valseuses/Corações Loucos, de Bertrand Blier – o Jules e Jim da geração pós-François Truffaut – e com Robert De Niro em Novecento, de Bernardo Bertolucci. Depardieu perdeu a forma, virou um ogro. Achei-o maravilhoso em A Chance de Fahim, o longa do francês Jean-François Martin-Laval que estreia na quinta, 16. Um garoto de Bangladesh que o pai leva para a França, para que ele se torne campeão de xadrez. O pai vira clandestino, dorme na rua, vai preso e corre risco de deportação. Depardieu faz o instrutor do menino. Poderia ter sido campeão, mas não foi. Tem uma relação complicada – com o menino, e não apenas. Com o mundo, consigo mesmo. Ama a dona da escola, todo mundo sabe – os alunos riem do seu vermelhão diante dela -, mas é incapaz de se declarar. Depardieu faz o papel divinamente. Irascível, terno. Lembrei-me de Marlon Brando. O homem talvez mais belo do mundo por volta de 1950. Todos aqueles músculos estourando na T-shirt que fez de Kowalski um ícone em Um Bonde Chamado Desejo, a versão de Elia Kazan, que no Brasil se chamou Uma Rua Chamada Pecado. Brando teve mais altos e baixos na vida e na carreira que qualquer outro ator, ou astro, que conheça. Perdeu a forma, no fim da vida, vivendo largado no Taiti, virou uma bola de tão gordo. Mas a sedução, a virilidade permaneceram intactos e a dança dele com Faye Dunaway em Don Juan De Marco é imorredoura na lembrança. Quero dizer que me emocionei muito com a história (real) de Fahim. A tragédia dos imigrantes, o conservadorismo e sua prática social – o ódio ao outro – vistos por outro viés. O garoto, Assad Ahmed, é ótimo, o ator que faz seu pai é muito bom, mas Depardieu… Ele virou polêmico por renegar a cidadania francesa – devido a problemas ideológicos com o governo socialista de François Hollande. Requereu e Vladimir Putín outorgou-lhe a cidadania russa. Não creio que, por isso, tenha se transformado num monstro, embora tenha exagerado nos elogios à ‘democracia’ sob Putín – tudo menos isso – e, para complicar, tenha sofrido na sequência processos por agressão e estupro. Está em estado de graça, o velho ogro. Depardieu poderia ter sido o modelo para Shrek. Deve ser, por isso, que nós, o público, amamos tanto o ogro da DreamWorks.