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O Norman Bates de Newtown

Luiz Carlos Merten

19 de dezembro de 2012 | 10h56

Talvez eu seja o último – não creio – a tratar do massacre de Newtown, mas confesso que é um tema que me deprime. Hesitei muito antes de escrever esse post, e não foi por falta de vontade. Não sei nem se vai ficar coerente. Experimentei sentimentos contraditórios na viagem a Nova York. Em Londres, no ano passado, pouco menos de um mês antes do Natal, já havia ingressado num clima meio dickensoniano, a la ‘Christmas Carol’, mas não creio que a ‘holiday season’ seja mais intensa em qualquer outro lugar que Nova York. O Natal está em toda parte, não dá a impressão de ser só consumo. No sábado, tomei um susto a ver a 5.ª Avenida, a 8.ª, Time Square e a Rua 42, com todos aqueles cinemas, tomadas por milhares de Papais Noeis. As pessoas, os jovens principalmente, vestem as roupas de Santa Claus e saem às ruas. Todo mundo se cumprimenta, confraterniza. Do nada recebia sorrisos e até abraços. Nesse quadro, meio atarantado, entrei na Barnes and Noble e lá estavam as ofertas de brinquedos e livros da livraria. As crianças puxavam os pais, mostrando o livro, o game que gostariam de ganhar. Não conseguia parar de pensar nas famílias, nos pais, nas crianças de Newton. Tantas vidas interrompidas – não creio que seja mais fácil para os sobreviventes. Ninguém deve superar impunemente a morte de um filho. A vida pode até vir, de novo, mas temo só de pensar que o vazio deve permanecer, para sempre. Fui tomar um café no Europa, em Time Square, e na TV uma comentarista criticava a fala do presidente, em que Barack Obama, emocionado, manifestava seu desejo, transformado em resolução, de criar uma força-tarefa para propor medidas como a venda de armas semiautomáticas. Misturo tudo, eu sei, mas hoje, vindo para o jornal, peguei o ‘Metro’ no semáforo e havia aquela chamada de capa – brasileiro prefere futebol e cerveja a mulher. O futebol lidera a preferência com 80%, os outros caem para a faixa dos 30%, segundo a pesquisa. Por discutíveis que sejam os  números – Howard Hawks fez ‘O Esporte Favorito do Homem’, sobre a pescaria, mas, no limite, a ideia do filme é de que o caniço é outro –, e mesmo não querendo propriamente defender a cerveja como oinstituição nacional, acho muito curioso como as leis norteamericanas permitem, em diversos Estados, carregar armas à mostra, criando restrições para a bebida. É muito raro ver gringo bebendo na ruas, e quando o fazem, a latinha ou garrafa de cerveja, em geral, está escondida num saco de papel. A tal apresentadora, volto a ela, criticava o presidente e invocava a segunda emenda. Citava pesquisas – as chacinas (Columbine, Newton etc) não têm nenhuma ligação com o número de armas por habitante. Na verdade, é toda uma cultura que tem de ser colocada em xeque. Hollywood forjou um imaginário baseado na ação, no tiroteio. Não digo que fã de western, ou de thrillers nem de filmes de gângsteres sejam, automaticamente, mais sucestíveis a esse tipo de explosão de violência. As raízes são sempre mais profundas e complexas. O garoto de Newtown, qual Norman Bates de Connecticut, matou a própria mãe, antres de sair disparando daquele jeito na escola em que ela lecionava. ’Psicose’, ao vivo e a cores. Em princípio, sou contra armas – mas me divirto com elas no escurinho do cinema. Esbaldo meu Id. Volto à tal comentarista. Para ela, e muita gente mais, a chacina é um efeito colateral que não justifica que se toque no que consideram uma liberdade fundamental. Fico possesso. Ainda bem que não porto armas. Seria capaz de ter um acesso e… disparar nessas pessoas. São piores que Norman Bates que, afinal, é um doente. O problema é antecipar-se. Prevenir e diagnosticar a doença. Todos aqueles Papais Noeis e, lá no fundo, o mal, como enfermidade.

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