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O nome é DeMille, e ele fazia épicos

Luiz Carlos Merten

14 de setembro de 2020 | 23h21

Minha ex-colega Jussara, que foi diagramadora no Estado, talvez nem se lembre que me deu, como presente de aniversário, um porta-retrato com a foto de John Ford. Guardo-o na minha estante, entre duas fotos da Lúcia. John Ford! Não sou muito de colecionar fotos, aliás, não coleciono. Essas são das raras que tenho em casa. Em compensação, tenho livros e mais livros, coleções de revistas de cinema. A Lúcia, que é de outra geração, tenta me convencer a me desfazer de tudo isso, que só entulha minha casa. Será? Cada vez que olho a foto de Ford lembro-me da tal reunião do Director’s Guild, convocada por Cecil B. DeMille para desautorizar o presidente da instituição, Joseph L. Mankiewicz. Eram os anos do macarthismo e a facção de DeMille acusava Mankiewicz de ser antiamericano. Seria um simpatizante do comnunismo. DeMille tentava convencer os colegas a aprovarem uma moção pelo qual, no fim dos filmes, entraria um letreiro dos diretores ‘patrióticos’ garantindo que não havia ‘vermelhos’ infiltrados nas equipes. A assembleia estava dividida quando John Ford pediu a palavra. Apresentou-se – ‘Meu nome é John Ford e eu faço westerns.’ Prosseguiu – ‘Não sei se existe alguém aqui que conheça mais o gosto do público norte-americano do que Cecil B. DeMille, e ele certamente sabe dar ao público o que ele quer.’ E falando diretamente para o diretor – ‘Mas eu não gosto de você, Cecil, não gosto do que você defende, nem do que disse hoje.’ A moção proposta por DeMille não passou. Já devo ter contado essa história no blog. Lembro-me dela cada vez que revejo Sansão e Dalila, a versão de 1949, com Victor Mature e a pantera amorosa Hedy Lamarr, porque o filme é daqueles aos quais não resisto. Na noite de sábado, ao voltar do restaurante em que havia comemorado meu aniversário com Orlando Margarido e Elaine Guerini, dei uma zapeada e havia começado Os Dez Mandamentos, a versão de 1956. Terminei entrando pela madrugada. Não creio que o filme deva, ou possa, ser levado a sério, mas, como storytelling, o DeMille não era mole. A Bíblia como violência + erotismo. As belas filhas de Jetro, no poço da família, pedindo ao Senhor que envie um Homem com maiúscula e chega o Charlton Heston, que certamente levou seu Moisés muito a sério. Fico sempre conflitado. Como posso gostar do cinema de DeMille, de alguns de seus filmes, pelo menos, se ele era tão kitsch, e pior ainda, tão reacionário, um direitista fdp? Imagino que algum leitor poderá dizer que é excentricidade minha, mas peguem um diretor – um autor – que a maioria respeita. Martin Scorsese. A par de sua obra, ele tem sido um batalhador pelo resgate e reconhecimento de obras definidoras do cinema norte-americano e mundial. Scorsese recebeu em 2010 o Prêmio Cecil B. DeMille. Se não respeitasse o diretor, não teria aceito. Fez mais que isso – escreveu a introdução (elogiosa) do volume Cecil B. DeMille, The Art of the Hollywood Epic. É o que também estou reconhecendo.