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O ‘movimiento’ em Depois Daquela Viagem

Luiz Carlos Merten

13 de maio de 2019 | 09h41

Fechei ontem meu ciclo da aids. Depois de A Golondrina e Angels in America, fui ver Depois Daquela Viagem no Teatro Viradalata. Até onde me lembro, a adaptação do livro de Valéria Polizzi foi uma encomenda feita a Dib Carneiro Neto por Roseli Tardelli, produtora cultural e ativista do movimento da aids. Valéria conta como contraiu o virus – com o primeiro namorado! – e todo o processo que se seguiu. O preconceito, a resistência a iniciar um tratamento, os momentos abissais em que esteve à morte, o apoio da família e também os problemas típicos de uma jovem, independentemente da aids – viver, apaixonar-se. A intenção é didática – a importância da camisinha, não faltando brincadeiras com fálicas bananas, o que até Woody Allen já fez. É um texto muitíssimo menos complexo que o de Angels in America, com suas conotações políticas e bíblicas, mas retratando uma época em que ainda havia muita ignorância sobre a aids, Depois Daquela Viagem não deixa de centrar no essencial. Desmistifica a aids como associada à promiscuidade – o câncer gay, como era chamada -, e se a morte está presente, o que é a vida? Qual é o seu sentido, pergunta Valéria ao amigo/namorado suíço que foi à Índia meditar? A nova montagem de Depois Daquela Viagem é uma realização da Cia. Encontro em Cena, com direção de Abigail Wimer. Nos fins de semana, está no Viradalata, na Apinajés, Sumaré, durante a semana no Teatro Alfredo Mesquita, da Prefeitura Municipal, em Santana. No fôlder, há uma declaração interessante – ‘Ah, os grupos… Como é bom aprofundar a encenação, a interpretação e os conteúdos todos juntos, em grupo.’ É o que faz a companhia Encontro em Cena. Dib escreveu um diálogo naturalista, mas não isento de poesia, com referências a anjos (na América, porque Valéria passa uma temporada lá, ou no Brasil?) Retrabalhado pelo elenco jovem e talentoso, o diálogo torna-se vivo no palco e a montagem ganha mobilidade por meio de uma mise-en-scène que faz com que tudo, atores e objetos, esteja em movimento, em cena. Talvez seja esse, afinal, o sentido da vida indagado pelas três Valérias. (É oportuno destacar que, segundo o próprio diretor Paulo de Moraes, de Angels in America, a música Movimiento, de Jorge Drexler, sempre esteve em seus ouvidos durante o processo de criação do espetáculo. Curiosa coincidência.) Não creio que seja grande teatro, como outros textos do autor, mas dessa vez deu para ver e sentir Depois Daquela Viagem como poiesis, o que a montagem anterior, malgrado acertos de elenco, não permitia. O público de Malhação, incluindo seu atual diretor, Cao Hamburger, só teria a ganhar vendo a criação da Cia. Encontro em Cena.