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O mistério de Timothée Chalamet em Me Chame pelo Seu Nome

Luiz Carlos Merten

19 Janeiro 2018 | 19h14

Fui rever agora à tarde Me Chame pelo Seu Nome. Ontem, antes da sessão de Ella e John, Ubiratan Brasil – meu editor – me disse que Inácio Araújo e Luiz Zanin não gostaram muito do filme (Inácio não gostou nada), tendo feito seus reparos, e ele próprio, Bira, havia se decepcionado, ou pelo menos não gostado tanto. Não é para comprar briga – todo mundo tem direito de gostar ou não -, mas gostei até mais dessa vez. Em Berlim, no ano passado, Armie Hammer e Timothée Chalamet, que fazem Oliver e Elio, tiveram de dar 1001 explicações sobre as cenas de sexo. Homossexualidade é f… Estou falando da ficção. Muitos críticos homens, brancos e heteros conseguem se colocar na cabeça de mulheres, negros, índios, imigrantes, até ETs, mas quando o ‘outro’ é gay eles travam. Não conseguem (qual é o medo?), mas para não admitir o preconceito fazem restrições que, às vezes, soam estapafúrdias. Até hoje me arrepio de lembrar do que coleguinhas escreveram sobre o Billy Elliot de Stephen Daldry, que nem era gay, mas queria ser bailarino, num rude meio de mineiros. Fico siderado só de lembrar da tensão nervosa e do voo do pássaro no desfecho do filme. Magnífico! (E agora, antes de seguir adiante, quero dizer que me paralisa quando escrevo ‘negro’. Soa mal, temo ser ofensivo, mas dizer ‘afrodescendente’ não é prática no País. Talvez tenhamos todos de aprender.) Armie e Timothée contaram que, na preparação, o diretor Luca Guadagnino os fez ver e rever um filme, e foi Passagem para a Índia, de David Lean. A cena da visita ao templo, com todas aquelas esculturas eróticas que produzem perturbação em Adela e a personagem de Judy Davis, ao responder ‘O que foi?’, diz ‘Nada’, como poderia dizer’Tudo’. No filme de Lean, a visita ao templo, seguida da excursão às cavernas de Marabar, leva à acusação de assédio que coloca o Dr. Aziz no tribunal. Daqui a pouco não vai se poder nem falar no clássico de Lean, porque no filme a acusação é derrubada no tribunal, e isso está na contramão das condenações sumárias com que o noticiário nos brinda quase todo dia. Longe de mim querer defender Harvey Weinstein, ou mesmo Kevin Spacey, a quem já achava escrotos muito antes das atuais cruzadas contra eles, talvez, no caso do segundo, confundindo um pouco o ator com seus personagens. Mas, enfim, tudo ou nada. Nada é tudo. Era o que Luca Guadagnino queria que Armie e Timothée entendessem, e praticassem, nas tais cenas de sexo. Durante o filme, o diálogo dos personagens é velado e até cifrado, porque eles deixam implícito o que estão sentindo, sem nunca abrir a questão. São muitas as cenas em que dizem ‘Nada’, e também poderiam dizer ‘Tudo’, para dar conta de sua perturbação. Timothée, eu achei gênio e ouso dizer que bem poucos atores na história do cinema, só os maiores, conseguem fazer o que ele faz. No final de Rainha Cristina, Garbo olha para o horizonte, não para a câmera, e o plano parece interminável. Jeanne Moreau encarava a câmera pelo tempo necessário, Monica Vitti também, e talvez seja uma qualidade feminina, exceto pelo fato de que Dirk Bogarde tinha essa mesma capacidade e a exercitou em grandes filmes de Luchino Visconti e Joseph Losey. Mas eu acho que ninguém supera Timothée, quando ele olha para as chamas, na lareira, o diretor corta e ele, na verdade, está olhando para nós, o público, no final do filme. Olha durante muito tempo, e chora, e depois sorri e seria bom que o espectador que já viu o filme, se teve o impulso de sair correndo, retorne e agora fique até o fim do fim, após… (Re)Veja. Esse final resume todo o filme, o que veio antes (duas horas!) foi para chegar ali. Sobre o que é Me Chame pelo Seu Nome? Não é fácil sintetizar, quando nada é tudo, mas tive hoje a impressão de que James Ivory, que a vida inteira quis ser mais viscontiano do que Visconti, finalmente chegou lá – como roteirista -, graças a Guadagnino. Heráclito, os Fragmentos. A água que passa está sempre mudando (a paisagem?), mas as coisas permanecem as mesmas. O Leopardo? As coisas talvez não tenham mudado para Oliver, embora Elio o tenha chamado pelo seu nome, mas mudaram para o garoto. Lançaram-no no turbilhão da vida cantado por Jeanne Moreau em Jules e Jim. Estou chocado, no melhor sentido, com Me Chame pelo seu Nome. E Timothée… (Pedro) Almodóvar tem razão. É a revelação do ano. E não vai levar o Oscar. A Academia é pequena demais para ele.