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O mistério de Salvo

Luiz Carlos Merten

29 Setembro 2013 | 12h08

RIO – Entrevistei Claire Denis e os diretores italianos de Salvo, Fabio Grassodonna e Antonio Piazza. Claire volta ao Festival do Rio, no qual já foi homenageada com uma retrospectiva. A mulher é branca que, se bate um sol, reflete como se fosse metal. Exagero, mas lhe perguntei se ela não precisa de cuidar. Claire já filmou até na África. Ela me disse que não vive sem sol, e mar, principalmnente mar. Declarou seu amor pelo mar do Rio. Na sexta, ao chegar, já foi nadar. Seu distribuidor brasileiro, Jean-Thomas Bernardini, da Imovision, promete lançar Os Bastardos nas próximas semanas. O filme dividiu a crítica em Cannes e a divisão continuou ao ser lançado na França. Ela me contou que Cahiers a entrevistou, dois críticos, um a favor e outro contra. O que era contra acusou o filme de ser sem moral, e Claire diz que é a primeira vez que isso ocorre em sua carreira. ‘Mais la moral c’est quoi?’ O mesmo cara disse que o pai incestuoso do filme é ‘dégalasse’, nojento. Segundo Claire, é impressionante como certos temas expõem os preconceitos das pessoas. Fiquei meio desconcertado com o filme, mas a autora é maravilhosa. Poderia ficar horas conversando com Claire, porque na verdade foi isso – uma conversa, e bem animada. Vincent Lindon e Chiara Mastroianni são os protagonistas. Eram casados – no passado, já se separaram. Perguntei-lhe do seu método, da sua mise-en-scène. Não existe método, a mise-en-scène é uma ferramenta cuja utilidade termina com a filmagem. O que sobra dos filmes? A experiência com os atores… Isaac De Bankolé, Isabelle Huppert, Chiara. Concordamos – CHiara deixoui de ser a filha de Catherine Deneuve e Marcello Mastroianni. Adquiriu personalidade própria. É forte e frágil, e hoje muito talentosa. Os italianos, amei. Salvo ganhou o prêmio da seção Semana da Crítica, em Cannes. Temo ser injusto, mas, ao que me lembre, Tiago Stivaletti, que era jurado, disse que havia um concorrente melhor, não lembro qual. A vitória do italiano foi um tertius, consensual, já que a presidente Mia Hanson-Love não havia gostado muito desse concorrente favorito de seus demais jurados. Eu fico imaginando quão bom será esse outro, porque melhor que Salvo não consigo nem imaginar. É outro filme do tamanho (imenso) de Um Estranho no Lago. Um assassino da Máfia mata um sujeito e poupa a irmã dele, uma cega. O encontro improvável dos dois dá origem ao mais belo filme de amor que vi recentemente. Assisti de pé, porque a sala estava cheia. Chorei, copiosamente, no estilo Merten. Os diretores me explicaram que quiseram fugir ao enfoque tradicional da Máfia. A formação deles é literária. Mudam os pontos de vista – contam do ângulo do cara, da garota. Como filmar do ponto de vista de uma cega? É um filme sobre a luz e o som. Sara Serralocco tem algo de Valeria Golino. O ator é o palestino Saleh Bakri, que vive em Haifa e já trabalhou com Elia Suleiman. O cara é um deus, não tanto em beleza, mas pelo porte viril e pela combinação de violência e ternura (com a mulher). A cena final me deixou chapado. Salvo também foi comprado para o Brasil. Pena que não deva estrear neste ano. Iria direto para a minha lista de 10 +.