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O ‘meu’ Morandi

Luiz Carlos Merten

26 de dezembro de 2012 | 09h31

Cada um há de ter uma lista de seus pintores preferidos. Eu amo Giotto, Piero della Francesca, Cézanne, Van Gogh, Courbet e… Morandi. Por isso mesmo, desembarquei em Porto Alergre no domingo, à tarde, sabendo que teria de correr ao museu da Fundação Iberê Camargo para ver a exposição dedicada ao grande artista. Era minha única chance. O museu fecha na segunda e nos feriados. Vou fazer uma leitura bastante subjetiva do que vi. O ‘meu’ Morandi é indissociável de Valerio Zurlini. Como? Ambos são artistas da Emilia Romagna, bolonheses como o molho de carne. No meu imaginário, pelo menos, as cores e volumes de Giorgio Morandi se integram às paisagens e aos sentimentos de ‘Cronaca Familiare’, que aqui se chamou Dois Destinos. Não creio que exista um artista, um pintor, mais minimalista do que Morandi. Sua vida expressa-se na obra. Morandi nasceu e morreu em Bolonha. Morou quase sempre na mesma rua, trocando de estúdio para duas ou três casas, adiante. A exposição inclui a réplica fotográfica do estúdio. As estantes, os cavaletes, os objetos, a cama tosca. A gente passeia pela exposição, no terceiro e quarto andares do prédio – a sugestão é começar no quarto e ir descendo pela rampa –, e a impressão é de que está vendo os mesmos quadros. Paisagens, naturezas mortas. Estudos de volumes, e cores. Objetos simples. Copos, moringas, blocos (retangulares, ocasionalmente cilíndricos). Nas paisagens, as casas são extensões dos objetos nas naturezas mortas. As composições quase nãso variam, as cores puxam sempre para o ocre, os volumes começam bem delimitados e, ao longo do tempo, vão se desmaterializando. A cor vira… emoção? Experimento a mesma sensação diante dos girassóis de Van Gogh e já contei como no MoMa, em Nova York, tive certa vez uma comoção violenta e comecei a chorar diante dos girassóis. Tentava me segurar, mas as lágrimas jorravam, como se uma represa, feito filme de Elia Kazan,  tivesse se rompido. Tudo me parece tão semelhante em Morandi e Zurlini, que também foi pintor. A Florença que ele pinta em tons pastosos em ‘Dois Destinos’ tem o mesmo rigor nos objetos, nas casas. A diferença, grande, é que Zurlini faz do rosto humano o território da sua investigação e Morandi busca na paisagem morta uma forma de refletir um mundo que, ele percebia nos anos 1930, 40, nos 60 – se desumanizava cada vez mais. E, na ausência do homem, Morandi direciona o olhar para celebrar a simplicidade, a depuração. Ele busca uma ascese. Seus quadros me atraem mais que as gravuras. Fiquei horas diante dos primeiros, passei meio rápido, confesso, pelas segundas. Valeu a pena ter ido a Porto também por Morandi.

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