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O ‘meu’ Kirk Douglas? Com Varínia, as belas cenas de amor de Spartacus

Luiz Carlos Merten

06 de fevereiro de 2020 | 10h01

“Para o mundo ele era uma lenda, um ator da idade de ouro dos filmes, um humanitário cujo compromisso com a Justiça e as causas em que acreditava estabeleceram um padrão que todos nós temos de buscar.” Tal foi o comunicado por meio do qual Michael Douglas e seus irmãos anunciaram, com tristeza, a morte de um grande do cinema. Foi-se Kirk Douglas, o pai de Michael, aos 103 anos. Em 1996, havia sofrido um AVC que deixou sequelas. Lembro-me dele em Berlim, teria de pesquisar para ver qual foi o ano, recebendo a homenagem do festival, o Urso de Ouro especial, por sua carreira. Com dificuldade de locomoção e para falar, Kirk fez questão de cumprir o protocolo e deu uma longa coletiva. O homem que trabalhou com Stanley Kubrick, Vincente Minnelli, Otto Preminger, John Sturges, William Wyler, King Vidor, Jacques Tourneur, Richard Fleischer e outros diretores que, como ele, pertencem à lenda, surpreendeu todo Homem Sem Rumo, mundo ao revelar seu filme favorito. Pois ele tinha um, e era Lonely Are the Brave, ou Sua Última Façanha, um roteiro de Dalton Trumbo que David Miller filmou em 1961, ou 62. Kirk fazia o bravo do título, um caubói do asfalto perseguido pela polícia, que utilizava um helicóptero. Um homem, seu cavalo, o rifle e a engenhoca voadora que o acossava (e ele derrubava com um tiro, ao atingir a hélice que estabilizava o aparelho. A odisséia de um solitário. Kirk Douglas nasceu Issur Danielovitch Demsky em Amsterdam – não na Holanda, em no Estado de Nova York, descendente de judeus russos, analfabetos e pobres. Em sua autobiografia, ele faz uma descrição pungente da dificuldade e do sofrimento. O pai não dinheiro para sapato e amarrava uma estopa no pé. Queria ser alfaiate, mas as mãos ásperas, endurecidas na labuta do campo, não tinham a finura necessária para manejar a agulha, e por isso amarravam seu polegar ao indicador, o que deve ter sido bem torturante. O maior pesadelo do jovem Issur era encontrar a forma de escapar da miséria, construindo um futuro. América! Terra do sonho. O pai, bêbado, violento e desiludido. Kirk entre a mãe e as quatro irmãs, duas gêmeas. Elas ajudaram a forjar sua sensibilidade, mas o pai foi decisivo. Chamava-se Bryna, o nome que Kirk Douglas colocou na sua empresa produtora. Foi um longo e difícil caminho para ser alguém, primeiro. Para ser ator, depois. Teatro, cinema. No livro, Kirk conta que teve um empurrãozinho de Laren Bacall, que falou dele para o produtor Hal Wallis, que terminou por contratá-lo. O filho do trapeiro – título de sua autobiografia – era um tipo bruto. Fez papeis de ‘heavy’, de ‘tough guy’. Filmes noir (Fuga ao Passado), pugilistas (O Invencível, que lhe valeu uma indicação para o Oscar, em 1949). Kirk Douglas foi se estabelecendo, ganhando prestígio. Fez todos aqueles filmes – Assim Estava Escrito, Chaga de Fogo, 20 Mil Léguas Submarinas, Sede de Viver (no papel de Van Gogh, nova indicação para o Oscar), Homem sem Rumo, Sem Lei Sem Alma, Glória Feita de Sangue, Vikings – Os Conquistadores, Duelo de Titãs, Spartacus. A convivência com a injustiça, o sentimento de exclusão fizeram dele um progressista – de esquerda? -, numa época em que a indústria sofria a pressão da direita, por meio do macarthismo. Lutou contra as listas negras e deu crédito a Dalton Trumbo, resgatando o grande roteirista em Spartacus. Tudo isso é história. Continuaram os grandes filmes – A Primeira Vitória. Kirk podia fazer homens íntegros, sólidos, mas era melhor quando o personagem vacilava. Foi imenso. Devo estar esquecendo alguma coisa – muita coisa, mas tenho cabine e preciso sair. Fica meu tributo ao filho do trapeiro, ao pai de Michael. Uma cena para definir Kirk Douglas? Seu sorriso em O Nono Mandamento, de Richard Quine, explicando para Kim Novak como fazia a barba, com aquela covinha no queixo. E as cenas de amor com a Varínia de Jean Simmons em Spartacus. Kirk era o produtor e chamou Kubrick para substituir Anthony Mann, o diretor original, com quem se desentendera. Kubrick nunca considerou o épico sobre o escravo, o gladiador que desafiou Roma um de seus grandes filmes. Mas era, pelo menos para mim. As mais belas cenas de amor que Kubrick filmou. Centenário, Kirk Douglas faz jus às palavras de Michael – uma lenda cujo maior legado é o humanitarismo.

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