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O Mensageiro? Matem!

Luiz Carlos Merten

15 Dezembro 2014 | 10h09

Meu amigo Dib Carneiro queria ontem ir ao cinema, mas é sempre um problema. Eu já vi tudo, ou quase tudo. Em geral, não me importo de rever filmes. Aliás, é o que mais faço. Mas ele descobriu O Mensageiro, e tenho de lhe agradecer. Não sei por que não havia visto o filme de Michael Cuesta, se houve cabine de imprensa, nada disso. Michael quem? Vou fazer uma pesquisa para descobrir quem é o cara. Houve outro Mensageiro, há uns quatro, cinco anos, de Oren Moverman, roteirista de Não Estou Lá, de Todd Haynes. O filme passou em Berlim e era sobre dupla de oficiais do Exército norte-americano, cuja função é informar às famílias que seus jovens morreram em combate. Ah, sim, houve O Mensageiro (do Amor), de Joseph Losey, com Alan Bates e Julie Christie, no começo dos anos 1970, uma obra-prima, mas a mensagem aqui é outra e o próprio filme chama-se, no original, Kill the Messenger, Matem o Mensageiro, o que faz toda a diferença. Jeremy Henner é o repórter de um pequeno jornal do interior que descobre a grande matéria. O filme começa com o discurso oficial de governantes dos EUA contra a droga, mas, durante o governo de Ronald Reagan – é a tese de Michael Cuesta -, sem apoio do Congresso para fazer a guerra na Nicarágua, livrando a ‘América’ de outra Cuba, a CIA, através de seus agentes, se envolveu no tráfico de drogas e usou o dinheiro, que já era caixa 2, para apoiar os contras e despejar bombas nos sandinistas. A ideia parece fantástica, mas na ficção de Michael Cuesta o repórter de Jeremy Henner levanta uma história bem verdadeira, embora sem provas para corroborá-la. Primeiro, vem a consagração, depois, o descrédito e a perseguição da própria CIA, que tenta incriminar o personagem de Henner, para desacreditá-lo. No final, informa o letreiro, nosso jornalista se matou com dois – dois! – tiros na cabeça. Vejamos. Bang! O sujeito, com meio cérebro explodido, tem reflexo para puxar o gatilho. Parece improvável, para não dizer impossível, mas aí o próprio letreiro informa que a CIA terminou por admitir seu envolvimento com agentes que traficavam durante a guerra na Nicarágua. Ou seja, a história é real, mas o mea-culpa da Agência não repercutiu na mídia, que, naquele momento, estava mais interessada no escândalo sexual de Bill Clinton com Monica Lewinski, aquela história do pirulito presidencial. Assim como dois tiros parecem demais, Monica e seu sexo oral vieram na hora para distrair a atenção. Ingressamos na teoria da conspiração, ou sou eu que deliro? Foi tudo plantado, ou mera coincidência? Não sei se as pessoas notam, mas eu passei meio filme com o coração na mão, e justamente pelo título original. Matem o mensageiro. Existem ações que parecem banais e até em desacordo com o filme. O ‘herói’ passa tempo demais com seu carro, com a moto, visita lugares ermos e  sombrios. Eu, pelo menos, por conta da forma como Cuesta filma essas cenas, esperava o atentado. Kill the Messenger. Gostei de ter visto o filme do diretor que não conhecia e Jeremy Henner está bem. Gosto desses filmes que discutem o papel da imprensa, que discutem o jornalista como quixotesco soldado da notícia, mas gosto mais ainda quando, como em O Mercado de Notícias, entra a questão do interesse, que todo mundo sempre tem. Fiz uma pausa para pesquisar quem é Michael Cuesta. O cara é BFA em fotografia pela New York School of Visual Arts e tem um currículo bem expressivo, com episódios de séries cultuadas como Six Feet Under, Dexter, Blue Bloods – e Homeland, que até onde sei também critica, e muito, o Exército dos EUA. Vejam, é só o que posso sugerir,.