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O melhor

Luiz Carlos Merten

23 de julho de 2012 | 09h18

Consegui ver ontem à tarde ‘13 Assassinos’. Aleluia! Havia feito a entrevista que o ‘Caderno 2’ publicou sábado no ano passado, em Cannes. Plage du festival, um calor do cão, sol de derreter e eu, com um bando de malucos de várias latitudes, todos em êxtase ouvindo Takashi Miike falar do cinema de espada. O filme da vez era ‘Hara-Kiri’, seu remake do clássico de Masaki Kobayashi. e eu ainda não havia visto o ‘13’, mas Miike falou de ambos os filmes, da ética do samurai em geral. No sábado, peguei uma fila para ingresso no Frei Caneca e a sala 4 lotou antes que eu chegasse ao guichê. Ontem, me precavi. Passei pelo shopping a caminho do almoço com minha filha Lúcia e a amiga dela, Fabí. Peguei o ingresso e, às 16h30, já estava sentado na minha poltrona, à espera… Do quê? Por mais que esperasse, Takashi Miike com certeza me surpreendeu. ‘13 Assassinos’ é melhor que ‘Hara-Kiri’. Saí chapado da sala, topei com João Luiz Sampaio, tomamos um café e eu nem sei o que disse, porque estava com a cabeça num turbilhão. Precisava ficar sozinho um pouco, para ver se colocava as ideias em ordem. Mas me bateu uma curiosidade e desci à lan house no subsolo do shopping para uma pesquisa. Procurei por ‘13 Assassinos’, em português e inglês, críticas + reviews. Apareceu uma de meu colega Luiz Zanin Oricchio, quando o filme de Takashi Miike integrou a seleção do Festival de Veneza. Dizia que o filme não era digno de integrar a seleção de um grande festival – nem fui adiante. Esse tipo de reação não me diz nada, mas eu próprio não consigo compreender a perturbação que um certo tipo de ação me causa. Bertold Brecht lastimava o povo que necessita de heróis, e eu me pergunto se Brecht alguma vez disse isso, mesmo, porque não era burro, ah, não era, e tanta coisa se diz em seu nome. Por exemplo, estranhamento virou distanciamento na aplicação de suas ideias sobre a mise-en-scène de teatro e o efeito que os espetáculos deveriam (devem) provocar no público. Com todo respeito por Akira Kurosawa, Kenji Mizoguchi e Yasujiro Ozu, o maior autor japonês é Kobayashi e ‘Rebelião’ – que, a propósito, foi recusado no Festival de Veneza de 1967 – é o maior filmes japonês de todos os tempos, o ‘meu’ Rocco nipônico (‘Rocco’ também não ganhou em Veneza; perdeu para ‘A Travessia do Reno’, de André Cayattte). Dois samurais se defrontam, interpretados por Toshiro Mifune e Tatsuya Nakadai. O primeiro está indo levar ao xogum a denúncia das atrocidades cometidas por um suserano. O outro é guarda-costas do cara. Jurou defendê-lo, mas Nakadai sabe que, se matar Mifune, estará indo contra o próprio código de ética. O que ele faz? Golpeia o outro, para mostrar que poderia vencer, e recua para que ele o mate, como se fosse um haraquiri. Aquilo é de uma beleza, de uma grandeza, de uma tragicidade que me deixa pasmo. Eu preciso daquilo, pobre do Brecht se confundia intensidade dramática com alienação. De volta ao ‘13 Assassinos’, o grupo é formado para enfrentar o Exército de um senhor bárbaro e cruel. Esse homem está prestes a se converter no poder máximo. Os 13 vão tentar barrar seu caminho, enfrentando um Exército 15 vezes maior. Vão sobrar dois. Toda a arquitetura converge para o momento em que o samurai enfrenta o guarda-costas de Noritsugu. A fala final do vilão é shakespeariana. A sala estava cheia de descendentes de japoneses. Não sei se algum deles, com todo o peso da tradição cultural, mesmo os mais velhinhos – que havia muitos -, ficou tão exaltado quanto eu. Se alguém me perguntasse, às 7 da noite de ontem, não teria a menor dúvida em dizer que ‘13 Assassinos’ era (é?) o melhor filme do ano.

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