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O Mal-entendido, Camus como deve ser

Luiz Carlos Merten

04 Agosto 2018 | 23h56

Na última vez que falei com Gabriel Villela, ele estava indo para a roça – seu sítio em Minas -, para hibernar. Gabriel estava cheio de projetos. O Enrique IV de Pirandello, o Grande Sertão de Guimarães Rosa, o Estado de Sítio de Albert Camus. O último foi aprovado pelo Sesc. Gostaria muito de voltar a discutir teatro com um grande como Gabriel. Me veio essa nostalgia porque fui ver hoje o Mal-entendido de Ivan Andrade, e o Ivan tem sido assistente do Gabriel por anos. Como assistente, Ivan tem feito a manutenção das peças montadas por Gabriel. Imagino que venha daí sua familiaridade com a direção de atores. Não vou dizer que conheço Camus profundamente, mas tenho familiaridade com certos textos. O Mito de Sísifo, O Estrangeiro (claro), A Peste, o próprio Estado de Sítio. Mas não conhecia o Mal-Entendido. Direção e tradução do Ivan. Atuações de Maria do Carmo Soares, Hélio Cícero, Lara Córdula… Quando fui cumprimentá-la no fim, Lara me disse que Ivan me citava durante a preparação. O próprio Ivan me confirmou. Ele dizia a seus atores uma coisa que me ouviu comentar numa mesa de bar. A vida não é justa. Claro que não. Aplicou isso à revolta contra o absurdo de Camus. A sessão dessa noite foi top. Um monte de atores do Gabriel na plateia. E o grande mito, Antunes Filho, que se sentou na minha frente. Se havia um teste, Ivan foi aprovado. Teatrão, mas com classe. O Mal-entendido nasceu de um texto de jornal lido por Camus. Mãe e filha matam um estrangeiro num hotel para se apossar de seu dinheiro. A mãe não reconhece o próprio filho, de volta depois de 20 anos. A história real passou-se em Belgrado e e se tornou obsessiva para Camus. Se a revolta contra o absurdo das coisas e a falta de sentido da existência trazem dignidade para o homem, o problema, para Camus, é que os fins não justificam os meios e qualquer revolta deve ser sustentada pela ética. O Mal-Entendido tem muito a ver com O Estrangeiro, que obcecava meu mestre Luchino Visconti. Um filho que não chora no enterro da mãe – e é condenado por isso, não pelo assassinato que cometeu – em O Estrangeiro, uma mãe que mata o filho, que não reconhece, em O Mal-Entendido. A mesma tragédia num espelho – invertida. Tem duas peças que fiquei com vontade de rever. Navalha na Carne Negra e O Mal-Entendido. Todo o elenco do Ivan atua superbem, mas a Lara… Ando pensando em me bandear para o teatro. O cinema já deu o que tinha de dar. E o teatro… Vai ser bom polemizar com quem anda fazendo a seleção para o Shell, por exemplo. Quanto ao cinema… Outro dia, ao comprar o guia da concorrência para checar horários, me surpreendi que Inácio Araújo não dá mais cotações. Inácio! As cotações são agora só frases feitas, gracinhas – 30 ou 50 toques, para não aborrecer o público da internet. Gostaria muito de formar um clube de cinema nos moldes de Jean Douchet na França, mas não dá. Todo mundo hoje dá curso de cinema. Sobre Alfred Hitchcock, Kenji Mizoguchi. É de cortar os pulsos. Vejam O Mal-entendido. E, se possível, revejam O Estrangeiro. Visconti sempre lamentou que a viúva de Camus não tenha lhe permitido fazer o filme como gostaria. Não é o maior Visconti, talvez não seja nem grande, mas é belo. E fornece um contraponto muito interessante ao Mal-entendido de Ivan Andrade. Não acredito que esteja escrevendo isso. Ivan já entrou para o panteão dos grandes?