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O Mal-entendido (2)/Imaginai!

Luiz Carlos Merten

05 Agosto 2018 | 10h28

Lá vamos nós de novo. Ontem, revi Mamma Mia!, e explico por quê. Mais tarde. Agora volto ao texto anterior, sobre a montagem de Albert Camus por Ivan Andrade. Detesto reler meus textos, até um simples filme na TV, porque minha tendência é sempre mudar. Meu ideal seria um único texto, um work in progress que estaria sempre mudando – não será isso a vida? Reli o texto anterior e ia acrescentar coisas. Achei melhor escrever outro. Ivan, no imaginário dele, consegue conciliar Antunes Filho e Gabriel Villela. Antunes viu ontem o Mal-entendido, sentado na minha frente. Gabriel, soube na saída, verá na semana que vem. Não pude deixar de pensar em Gabriel, assistindo à montagem do Ivan. Imaginai! O estrangeiro, o filho pródigo, fala de sua casa à beira-mar. A hospedeira, sua irmã, que não o identificou e quer fugir à mediocridade de sua vida, sonha com o mar. O sonho é tão forte que ela começa a pular ondas imaginárias antes mesmo que La Mer irrompa na trilha. La mer, qu’on voit danser… O mar é muito forte no texto de Camus, traduzido pelo próprio diretor, mas é um mar imaginário e imaginado, não a tonelada de água com que Christiane Jatahy quase inunda o Ginásio Verde do Sesc Consolação. Se fosse cinema, poucos diretores resistiriam à tentação de fundir a fala de Lara Córdula com imagens do mar. Lembro-me quando Isabela Boscow e eu entrevistamos James Cameron aqui em São Paulo, quando ele veio lançar o DVD de Avatar (ou terá sido o próprio filme?). Cameron disse que não existem limites para a imaginação no cinema. Tudo pode ser criado no mundo digital, os seres mais fantásticos, as paisagens idem. Mas o cinema, se excita a imaginação dos autores, é mais concreto. Ele mostra – as mais distantes galáxias. O telão de Christiane mostra aquela gente toda chafurdando, cantando, dançando e se agredindo, física e verbalmente, na água. Sei bem dos significados psicanalíticos da água. Walter Hugo Khouri explorou-os num de seus mais belos e misteriosos filmes – mas, fora eu, quem fala hoje em dia em As Deusas, que, aliás, é o Persona do grande diretor brasileiro? O mar, ausente/presente em O Mal-entendido, fascinou-me mais que toda aquela água que passou a me incomodar – por que? – em Ítaca. Gabriel Villela sempre me provocou dizendo que o teatro sobrevive em qualquer canto, basta um ator para recitar um texto. Já o cinema, se tirar da tomada… Hoje, na era do DCP, são as chaves. Hoje, acontece de ir a uma cabine e ela ser cancelada por causa da chave, muito mais do que na era da película. Há um conflito entre o que é sólido e se desmancha no ar, e o que já está desmanchado e fica sólido por força da nossa mente. Imaginai!