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O maior Cristo?

Luiz Carlos Merten

20 de abril de 2014 | 12h58

No texto de ontem sobre O Colecionador, cometi um erro. Quer dizer, não foi bem um erro, mas disse que Terence Stamp e Samantha Eggar fizeram história em Cannes como os primeiros a receber os prêmios de melhor ator e atriz pelo mesmo filme, e foi pelo clássico de William Wyler. Isso é fato, mas acrescentei que somente Isabelle Huppert e Benoit Magimel haviam repetido o prêmio duplo, em 2000, com A Professora de Piano. de Michael Haneke. Isso não é verdade – em 1980, Michel Piccoli e Anouk Aimée também foram premiados por Salto nel Vuolto, de Marco Bellocchio. Não é um dos meus filmes preferidos (nem A Bela Que Dorme, que também sai em DVD) do maior diretor italiano contemporâneo. É sempre um prazer falar de Bellocchio, mas ele não é o assunto do post. Também falei ontem sobre o lançamento em DVD de O Evangelho Segundo São Mateus e terminei usando o filme famoso de Pier Paolo Pasolini para viajar nas lembranças sobre outras versões da chamada ‘maior história de todos os tempos’. À tarde, fui ver O Filho de Deus e tomei um choque. Nunca vi um Cristo como Diogo Morgado, aliás, não fazia a menor ideia de quem era. No final, plantado na poltrona do Frei Caneca, assisti aos créditos até o fim e vi que Morgado teve um coach de inglês. Fui procurar na internet. O cara é português, modelo e ator, e já fez novela no Brasil, no SBT. O quê? Modelo e ator? Ouso dizer que nunca houve um Cristo como Diogo Morgado – nem mais belo nem mais poderoso, mas o que me deixou chapado foi o sorriso provocador. Os Cristos de Franco Zeffirelli (Robert Powell) e George Stevens (Max Von Sydow) são atormentados, o de Nicholas Ray (Jeffrey Hunter) tem aqueles olhos que parecem dois lagos azuis, o de Pasolini (Enrique Irazoqui) é pequeno, franzino e irado. Diogo Morgado tem absoluto controle de sua história, mesmo quando vacila. No Monte das Oliveiras, pergunta ao Pai por quê, mas logo se recompõe. Diz a Maria, ao ser preso, Começou. E, da cruz, de novo para Maria, Terminou. Aos discípulos (e à mãe) diz que é o filho do Homem. Ao sacerdote, que é o Filho de Deus. Quando sobe ao Calvário, revê, e é o momento que turva seu sorriso, a euforia da chegada a Jerusalém. Agora é um homem só. A multidão voltou-se contra Ele. Quando resgata Pedro de seu ofício de pescador e o convida para pescar homens, o outro lhe pergunta – o que vamos fazer? – e Ele responde. Mudar o mundo. Vocês podem me chamar de louco, e talvez esteja, mas nunca vi história tão conhecida melhor contada. E o motivo é o mais simples – o diretor Christopher Spencer, seja lá quem for, quebra a escrita e constrói uma polifonia. Nunca houve outro personagem que não o Cristo nas demais versões. As demais figuras eram meramente acessórias. Aqui, todos os coadjuvantes ganham o primeiro plano e participam do drama. Caifás, Pôncio Pilatos, Maria Madalena. Embora excluída da Santa Ceia (para manter a iconografia oficial?), é a primeira vez que uma mulher é integrada ao grupo de apóstolos, e isso é mais que a revolução atribuída a outros Cristos da tela. As dúvidas de Tomé, as traições de Judas e Pedro… Fiquei pensando. Qual é o grande tema da história de Cristo? O amor? No final, mortos todos os apóstolos, sobra somente João. O Evangelho do amor? O tema pode ser a dúvida –  Cristo exorta Tomé a crer. A traição – pois ele é traído por tantos. Talvez o perdão. Como não sabia nada do filme, fui pesquisar e tirando o besteirol de sempre nas críticas (só chavões atribuídos a O Filho de Deus, mas que estão no olhar de quem vê), descobri que é a redução de uma minissérie para TV, é isso? Pode ser uma explicação para as cenas que aparecem nos créditos e que não figuram na versão para cinema. O que é o cinema? Montagem, diria Stanley Kubrick. Era garoto, em Porto Alegre, quando ouvi Jefferson Barros dizer uma frase que permanece comigo. Só os maiores utilizam a montagem paralela. Ele pensava em Luchino Visconti, em Rocco. O diretor de O Filho de Deus usa a montagem paralela em cenas pontuais, mas decisivas. É um filme que preciso ver de novo, até pela riqueza da trilha de Hans Zimmer. E agora me dou conta de que, ontem e hoje, falando de Cristo no cinema, tenho omitido o de Martin Scorsese. A Última Tentação, com Willem Dafoe. Tenho a impressão de que talvez tenha sido o modelo de Christopher Spencer – o colorido terroso, sujo, a trilha de Peter Gabriel. Existem sonoridades, na trilha de Zimmer, que remetem à de Gabriel. Muito interessante.

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