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O lugar de comer pipoca

Luiz Carlos Merten

24 Janeiro 2015 | 16h50

TIRADENTES – Teria dificuldade para resumir o que foi debatido no painel Qual É o Lugar do Cinema?, hoje pela manhã, aqui na 18.ª Mostra de Tiradentes. Cheguei até a pensar, e comentei com Luiz Zanin Oricchio, que está em Tiradentes como debatedor, que vou ter a maior dificuldade para cavar uma aspa, na matéria de segunda do Caderno 2. Meu amigo José Carlos Avellar deveria integrar a mesa, mas não veio e não sei se lamento, porque ele se poupou de polemizar, e muito – e me teria dado as citações que considero relevantes -, ou me congratulo por ter escapado à superficialidade geral, que talvez, mas duvido, o sufocasse. O tema é amplo e irrestrito, mas eu não aguento mais esses ataques vazios ao cinemão feitos por autores – aqui todo mundo é autor – de segunda. Bater em Michael Bay é o exercício preferido de 11 entre dez críticos, e justamente por isso coloquei a sua defesa como prioridade em meu blog, os outros que se danem. Mas coisas interessantes afloraram. As novas tecnologias mudaram o cinema. Para melhor ou pior, é questão a ser discutida. Mudaram (ponto) Temos hoje formas mais democráticas de captar imagens, mas não de exibi-las. Existem múltiplas telas, mas Cleber Eduardo levantou uma questão em que acredito. Um filme para uma plataforma nem sempre vai funcionar em outras e todas as telas não podem ser tratadas como uma só. O público mudou, hoje o jovem se liga na telona como na telinha de seu celular, seguindo a cartela comportamental que fez de Bill Gates um dos, ou o homem mais rico do mundo. Todo ano surgem modelos avançados de I-Phones, I-Pads e sei lá que mais, que viram objetos de desejo dos consumidores. Consumir, consumir, consumir. Os críticos lamentam o excesso de barulho (dos filmes e das plateias), clamam pelo velho silêncio. Mas havia silêncio nas cenas em Monument Valley do último Transformers, lembram-se? Talvez não lembrem. O problema é que as pessoas só veem o que querem. De minha parte, prefiro atacar o excesso de consumo (mas é o mundo em que vivemos!). Quase lancei um tema para provocar no debate. Stanley Kubrick, o arauto das novas técnicas em 2001, chegou a comprar os direitos de O Perfume, mas desistiu de adaptar o romance de Patrick Susskind porque lhe parecia absurdo fazê-lo sem cheiro, e as tecnologias disponíveis nos anos 1970 não lhe permitiam utilizar ou desenvolver os aromas que queria. Kubrick, cujo cinema seria ‘autoritário’, no conceito que Cleber desenvolveu – o filme que subjuga o espectador e o força a entrar em seu ‘tempo’ – não viveu para comprovar que o cinema hoje tem cheiro, e é de pipoca. É o inferno. Quando o sujeito não está comendo – e as pessoas fazem uma barulheira do cão, mastigando e remexendo no saco -, percebe como o cheiro de gordura é enjoativo. Qual é o lugar do cinema? Entre outras coisas é o lugar onde as pessoas vão comer pipoca.