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O lobo na ‘minha’ estepe

Luiz Carlos Merten

11 de agosto de 2012 | 09h38

Tenho perdido as datas. Na quinta, dia 9, completaram-se 50 anos da morte de Herman Hesse. Na sexta, ontem, 10, o centenário de nascimento de Jorge Amado. Herman Hesse! Não sei, sinceramente, se os jovens de hoje ainda leem o autor de ‘Sidarta’ e ‘O Lobo da Estepe’, mas, nos anos 1960 e 70, ele era a Bíblia dos que acreditavam em formas alternativas de organização política e social. Vou dizer agora uma coisa que poderá parecer asbsurda. Não sou louco de negligenciar Dostoievski nem Tolstoi, mas os russos nunca foram paixões minhas. Amava os franceses – Stendhal, Stendhal, Stendhal. Perdi a conta das vezes em que li ‘O Vermelho e o Negro’ e ‘A Cartuxa de Parma’, aos quais acrescentavas meu amor por Balzac, ‘As Ilusões Perdidas’. Foram os escritores que formaram minha cabeça, com Eça de Queiroz, ‘A Ciodade e as Serras’ mais que ‘Os Maias’ , Machado de Assis, ‘O Memorial de Aires’ mais que ‘Dom Casmurro’, e José de Alencar, porque eu amo ‘Senhora’. Já perdi as contas das vezses em que estyou na casa de minha ex, a Doris, em Porto, e ela tem o volume. Abro ao azar e leio qualquer trecho da história de Aurélia e, sempre, o final, que exaure minha necessidade de romantismo. Herman Hesse nunca foi um auitor que me atraísse tanto, mas só quem viveu os anos 1960, uma época de muita transformação (e intensa repressão durante o regime militar) pode entender o significado que tinha para a gente, para mim, a máxima hesseniana, ‘O amor é mais forte que a violência’. E havia alguma coisa nele muito intensa – a negação da mediocridade, a consciência da carne e a imposição de transcender esse apelo brutal, o chamado para o alto. O ‘meu’ Herman Hesse era ‘Nasciso e Goldmund’, com sua narrativa medieval e os amigos de temperamentos opostos, qual Apolo e Dionísio, mas o cinema ajudou a popularizar ‘SDidarta’ e ‘O Lobo da Estepe’ e hoje eu não consigo pensar no primeiro sem a fotografia de Sven Nykvist e o olhar que queima de Sashi Kapoor. A fascinação pela Índia e o jovem que abandona a casa dos pais e persegue umas vida de contemplação, distanciando-se do seu objetiovo pela carne. Pode ser que seja uma construição do meu imaginário, a cena idealizada na memória, mas a trepada no filme é a mais erótica de que me lembro. E o filme constroi a metáfora hesseniana do rio, que está ali, sempre passando, com a vida. Lembrar-me de ‘Sidarta’ é remontar aos 20 anos, aos 30, aos sonhos, às viagens (da imaginação, principalmente), às decepções. Aparentemente, consegui muito mais coisas que queria na vida e, ao mesmo tempo, não me acomodo (o que é bom) e acho que há todo um caminho a palmilhar ou refazer. Às vezes, acho até que o que consegui não é o que sonhava e a estepe continua lá fora, me chamando. Isso é a essência de Herman Hesse. A luta do espírito, pelo espírito. A mítica construção da liberdade. O lobo e o homem que se debatem no mais íntimo. Deu-me até vontade de reler Herman Hesse. Mas o encanto – terá se dissipado com o tempo?