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O Lobo, é?

Luiz Carlos Merten

17 de janeiro de 2014 | 10h29

Esperava ter tido tempo de postar ontem alguma coisa sobre as indicações do Oscar, mas não deu. Meu dia foi o ó, todo ele uma aposta contra o tempo, que terminei perdendo. À noite, estreava aqui em São Paulo, no Tuca Arena, a nova peça de meu amigo Dib Carneiro Neto, encenada por Gabriel Villela – Um Réquiem para Antônio, sobre a mítica relação (rivalidade?) entre os compositores Salieri e Mozart. Às 17h30, estava com o cartão de embarque na mão, feliz da vida porque achava que tudo ia dar certo. Mas o tempo começou a fechar, a chuva alagou o Santos Dumont e a gente dentro do avião. Quando achei que íamos, ocorreu uma coisa – a Gol, sempre ela, a pior companhia do mundo, recomeçou o embarque, de certo cancelando algum outro voo que não estava lotado para economizar. Não parava de entrar gente, a chuva recomeçou, o aeroporto alagou, fechou de novo. A todas essas, o piloto, que vinha passando informaçõ0es – pedindo a compreensão da gente – sumiu. Calou-se na cabine de comando, e bem podia ter informado o que estava ocorrendo. Só voltou a se manifestar tipo 9 da noite, quando o voo partiu, mas aí já tinha perdido a peça (que espero ver hoje). Eu odeio a Gol, e não é de hoje, mas não é o assunto do post. O Oscar. Houve o que não deixou de ser uma surpresa para mim. O Lobo de Wall Street e Trapaça lideram as indicações (cada um com dez), ficando 12 Anos de Escravidão com seis. Eu não teria dúvida nenhuma para atribuir o Oscar ao filme de Steve McQueen, mas assim como 12 anos, com todas as suas indicações, ganhou somente o Globo de Ouro de melhor filme, começo a duvidar de que continue sendo favorito. Trapaça, de David O. Russell, concorre em todas as categorias principais – filme, direção, roteiro, ator e atriz, coadjuvante masculino e feminina. Somando-se a isso o fato de Russell ser darling da crítica e dos produtores nos EUA – ele costuma ser comparado a Federico Fellini, sabe-se lá por quê -, e não me surpreenderia mais se o seu estudo de personagens atropelasse a dura revisão histórica de McQueen. É um autor de conflitos básicos – fome (Hunger) e sexo (Shame). 12 Anos é sobre o poder do dinheiro que reduz os homens à escravidão e é um filme sobre a redução das pessoas a coisas, senão objetos. Há quase 40 anos, em 1975, Richard Fleischer, um diretor que amo, fez um filme que foi barbaramente mutilado pelos produtores, mas me deixou pasmo,  mesmo assim. Lembro-me das críticas furiosas contra Mandingo, que o filme era sensacionalista e sei lá que mais, mas eu fiquei muito impressionado com o foco de Fleischer na questão sexual, no foco do tráfico de corpos entre a casa grande e a senzala. 12 Anos não é só um acontecimento estético – por sua excelência artística. É também a culminação de uma tendência sociopolítica revisionista, que pode ter a ver – tem – como o fato de um negro, perdão, um afrodescendente, estar instalado na Casa Branca. Sei que as pessoas não gostam de O  Mordomo da Casa Branca, de Lee Daniel, mas eu gosto. Gostei mais ainda de Fruitvale Station, que vi esta semana numa cabine na Paris. Tinha ido ver outro filme, houve sei lá que problema com a chave digital e, para não perder a caminhada, me ofereceram a chance de ver o Fruitvale, reconstituição dramática do episódio da morte do cara por guardas do metrô de São Francisco, num incidente no metrô, anos atrás, que foi documentado por passageiros com seus celulares (e instantaneamente divulgado nas redes sociais). Forest Whitaker e Octavia Spencer, de Histórias Cruzadas, são os produtores e o filme é, assumidamente, uma obra militante. E tudo isso, claro, passa pelo Quentin Tarantino de Django Livre, por mais que Spike Lee brade no deserto contra o branquelo que, depois de se vingar de Hitler (Bastardos Inglórios), transformou a saga da escravidão norte-americana em relato de spaghetti western.

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