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O jovem Scorsese e sua sexy e marginal Boxcar Bertha

Luiz Carlos Merten

08 de janeiro de 2019 | 16h47

Passei em casa depois da sessão de Vidro (e do almoço) e agora não posso sair. O vento zune, parece que vai rebentar a porta de vidro da sacada do apartamento. E o céu está escuro, numa armação de tormenta. Só me resta o post, e esperar que os elementos se acalmem. Se não tivesse de estar aqui no domingo à noite, por causa do Globo de Ouro, adoraria ter permanecido no Rio, pelo menos até amanhã, quarta, 9, por conta da retrospectiva de Martin Scorsese no CCBB. Como? Scorsese é um diretor que há pelo menos uns 20 anos não me interessa. Mais, até. A partir de Os Bons Companheiros, que é de 1990 – quase 30! -, seus filmes foram me interessando cada vez menos, mas confesso que gostaria de rever um deles, o inominável Lobo de Wall Street, pelo simples motivo de que gostei tanto de Margot Robbie e Jonah Hill em Eu Tônia e A Pé Ele não Vai Longe que me agradaria voltar a eles, no filme que lhes deu projeção. Na segunda, a retrospectiva apresentou Minha Viagem à Itália e, na quarta, será a vez de Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Americano. Mesmo não gostando mais dos filmes de Scorsese, não sou louco de não reconhecer o que ele tem feito pela conservação e preservação de clássicos do cinema mundial. Como crítico, que não é – pelo menos formalmente -, ele me impressiona por suas tiradas e observações precisas na apreciação de diretores que admiro. Como relatei aqui, assisti na sexta a Sexy e Marginal, que passa amanhã de novo, às 19 h. Boxcar Bertha! No começo dos anos 1970, Scorsese já tinha uma carteira de curtas e longas no currículo. Havia sido um dos montadores de Woodstock, de Michael Wadleigh, sobre o concerto de rock, e Roger Corman o contratou para dirigir o que pretendia que fosse uma espécie de sequência de Bloody Mama/Os Cinco de Chicago. Corman adquiriu notoriedade, na empresa American International, por suas adaptações de Edgar Allan Poe, suntuosamente fotografadas por Floyd Crosby e Nicolas Roeg, e todas feitas com orçamento nulo, ou quase. Mas eu, pessoalmente, prefiro seus filmes de gângsteres – O Massacre de Chicago e Os Cinco de Chicago, sobre a quadrilha formada por Shelley Winters com os filhos que dominava com mão de ferro. Boxcar Bertha baseia-se no livro autobiográfico em que a personagem título conta sua história e que foi só um pretexto, porque é quase tudo invenção. Revoltada porque viu o pai ser morto durante a Grande Depressão, Bertha liga-se a um sindicalista itinerante/David Carradine e a outros dois marginais, um negro/Bernie Casey e outro, judeu/Barry Primus. Boxcar Bertha Thompson é Barbara Hershey, que já havia feito A Procura da Felicidade, de Robert Mulligan, ganharia duas vezes, em anos consecutivos – 1987 e 88, por Gente Diferente e A World Apart -, o prêmio de melhor atriz em Cannes e seria a Maria Madalena de A Última Tentação de Cristo, do próprio Scorsese. Os quatro formam uma quadrilha para pilhar trens e são perseguidos pela estrada de ferro, no que tem de representação do poder e do dinheiro, basta comparar com Sam Peckinpah (Meu Ódio Será Sua Herança) e Sergio Leone (Era Uma Vez no Oeste). A mulher poderosa, capaz de se afirmar no universo violento dos homens, pode ser um conceito de Corman (Bloody Mama) – e tem algo da Bonnie Parker de Faye Dunaway em Uma Rajada de Balas, de Arthur Penn, de 1967 -, mas Scorsese, ao aceitar a encomenda, tinha agenda própria para seguir. Não se pode esquecer que ele teve uma educação católica muito rigorosa (e até queria ser padre!). É curioso, revendo o filme, como Bertha e Big Bill, o sindicalista, se transformam. Ela adquire um sentido mais forte da ética, ele abre mão do sindicato por ela, e pelo pequeno grupo de transgressores que encarnam. Big Bill é crucificado pela estrada de ferro e a cena é bárbara, em todos os sentidos, antecipando a Paixão de Cristo, segundo Scoresese (e Nicos Kazantzakis, autor do livro A Última Tentação de Cristo). Sexy e Marginal é de 1972, portanto contemporâneo de O Último Imperador, de Robert Aldrich, que é de 1973 e no qual o ‘vagabundo’ Lee Marvin desafia a estrada de ferro, cujo sicário, Ernest Borgnine, o persegue e ambos têm um duelo memorável de machados no alto do trem. Gostei de ter revisto o filme, e apesar dos seus possíveis defeitos é um bom Scorsese. Estou com preguiça de pesquisar, mas até queria fazer uma busca sobre Barbara Hershey, para tentar entender porque essa bela mulher e atriz excepcional não virou uma mega estrela. Tenho pensado nela desde que (re)vi Sexy e Marginal. Barbara Hershey! Maravilhosa. Agora, sim, o mundo desabou lá fora. Está chovendo muito em Pinheiros, e com raios e trovões assustadores. Vai passar, mas sabe-se lá o estrago que essa chuva vai causar. De volta ao Scorsese, só espero que a retrospectiva venha para o CCBB daqui.