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O Jardim das Cerejeiras, catedral do teatro

Luiz Carlos Merten

19 Janeiro 2019 | 01h43

Existem puristas que contestam o título O Jardim das Cerejeiras, dizendo que deveria ser O Jardim das Ginjas. A cereja seria um fruto mediterrâneo, próprio dos climas quentes, e a ginja seu equivalente do frio. Fui ver ontem à noite a montagem de Eduardo Tolentino do último texto de Tchecov, no teatro da Aliança Francesa. Na saída fui abraçar o diretor e lhe disse o óbvio – que texto! Tolentino, com aquele poder de síntese dos grandes diretores, me retrucou que era ‘a catedral do teatro’. Sob múltiplos aspectos, O Jardim das Cerejeiras oferece uma súmula do pensamento de Tchecov, porque muitos personagens vêm de peças anteriores ou são baseados em pessoas que ele conheceu. O próprio texto não saiu de um jato, mas foi concebido ao longo de anos – décadas? Conta a lenda que ele duvidava da eficácia do que estava escrevendo. Achava seu texto ‘inútil’. Quando finalmente o entregou ao encenador – Constantin Stanislavski, no Teatro de Arte de Moscou – pensou que havia produzido uma comédia. Horrorizou-se, ainda segundo a lenda, ao assistir ao ensaio e constatar que Stanislavski o havia transformado numa tragédia. Como todo Tchecov – como Tio Vânia e As Três Irmãs -, é sobre como as mudanças sociais atropelam e afetam as pessoas. Um clima de fim de mundo, de desencanto, de tristeza infinita – mesmo que os novos tempos estejam chegando -, ao qual a batida de violão empresta… Um tempo particular? Achei o espetáculo lindo, e Clara Carvalho, como a viúva, Liubov Andreievna, está maravilhosa. Depois de uma temporada intensiva no Santiago a Mil, achei que gostaria de dar um tempo no teatro. Que nada! O Jardim das Cerejeiras renovou meu apetite.