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O J’ Accuse de Polanski, a consciência dos homens

Luiz Carlos Merten

15 de fevereiro de 2020 | 07h25

Dois filmes que me impressionaram muito, em rápida sucessão? Uau! depois do Loach na Seleção do Rio, assisti agora pela manhã à cabine de J’Accuse, o filme de Roman Polanski sobre o Caso Dreyfuss que venceu o grande prêmio do júri – presidido pela autora argentina Lucrecia Martel – no Festival de Veneza do ano passado. Tudo – O Exército francês, a 1.ª Guerra, o julgamento – leva de volta a Glória Feita de Sangue, o clássico de Stanley Kubrick que evocava o notável Samuel Johnson – “O patriotismo é o último refúgio dos canalhas.” Infelizmente, é o que continuamos a ver. Polanski esperava fazer esse filme em 2012, após O Escritor Fantasma, em parceira com o escritor Robert Harris, mas o projeto teve de esperar. Harris terminou escrevendo um livro, The Officer and the Spy, editado na França como D. O Caso Dreyfuss narra um dos mais notáveis exemplos de farsa política em que pode se transformar um julgamento. Qualquer semelhança é mera coincidência. Num clima de forte antissemitismo, oficial judeu é acusado de traição, condenado sem provas e enviado para o isolamento na Ilha do Diabo. O caso inspirou um célebre panfleto de Émile Zola, J’Accuse, com acusações ao Exército francês, que levou à reabertura do caso, à queda do governo e à inocentação de Dreyfuss e sua reinclusão na Armée. Polanski começa seu filme com a degradação do condenado e o seu confinamento, e aí muda o foco, centrando o relato no Major Picquart, que foi decisivo na condenação e descobre que tudo não passou de uma conspiração – uma farsa. Picquart tenta reabrir o caso, seus superiores o intimidam,isolam, fazem de tudo para que desista. Ele segue em frente, ganha o apoio de Zola, que publica seu panfleto no jornal Aurore/Aurora, tudo em nome da Justiça e da verdade. Um caso de consciência. Não andamos vendo muito disso no Brasil, ultimamente. Pode ser que os problemas de Polanski com a Justiça o tenham levado a prosseguir com o projeto, apesar dos percalços, da mesma forma que o fato de ser judeu, e ter vivido a experiência do Holocausto o levou a fazer O Pianista, com o qual venceu Cannes, e o Oscar(como Parasita). Teria de ter mais tempo para falar sobre a estética rigorosa do filme – e estou voltando ao post porque aqui, com esse travessão, dei uma parada para entrevistar Michel Ocelot, pelo telefone, pela próxima estreia de Dilili em Paris. E agora tenho de ir ao jornal, mas antes não posso deixar de falar, brevemente que seja, em Jean Dujardin, que faz Picquart. Em 2012, ele ganhou o Oscar de melhor ator por O Artista, que também venceu como melhor filme e diretor (Michel Hazanavicius) – Bong Joon-ho não foi o primeiro. Desde então, Dujardin não havia feito nada tão bom, e até parecia perdido entre papéis cômicos e tentativas de um cinema mais dramático. Polanski lhe deu o papel de sua vida. O de um homem íntegro. Gostaria de pensar que Dujardin também é assim na realidade.