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O imbróglio da Ancine e o fantasma da censura no ar

Luiz Carlos Merten

20 de julho de 2019 | 11h30

Não imaginava que minha sexta-feira – ontem – seria tão agitada. Bolsonaro vinha sinalizando sua insatisfação pelos rumos do cinema brasileiro. Na quinta, fiquei de sobreaviso porque se esperava que ele anunciasse a extinção da Ancine. O anúncio terminou sendo parcial, ele disse que pretendia transferir a Agência do Rio para Brasília e também invocou valores familiares para protestar que, “com dinheiro público, se façam filmes como Bruna Surfistinha.” Na sexta, após participar de um evento do Ministério da Cidadania em homenagem ao Dia Nacional do Futebol, foi ainda mais longe. “Se não puder ter filtro, nós extinguiremos a Ancine.” Filtro = censura? Foi uma tarde bem agitada, a de ontem, correndo atrás de entrevistados e redigindo o texto que teve a participação de Guilherme Sobota, que foi quem entrevistou Luiz Carlos Barreto, o Barretão. A matéria ficou enorme, mais de 7 mil caracteres, que fui tentando reduzir para me aproximar do tamanho no diagrama – 4 mil. Muitos protestos contra a tentativa de intimidação e censura, outras tantas dúvidas sobre se ele, reativo como é, extingue a Ancine com um canetaço e as vozes sensatas, pedindo muita calma nessa hora. A decisão tem de passar pelo Congresso, a agência não põe dinheiro nos filmes, os recursos vêm de um fundo criado lá atrás pelo Geisel e que inchou em 2015, ao agregar recursos da telefonia, que também trabalha com imagem. Esse fundo representa algo em torno de R$ 1 bilhão e só pode ser aplicado no audiovisual. Se não for, extingue-se, não vai para lugar nenhum. Puf! O dinheiro sumiu. Barretão fez toda uma dissertação técnica, sobre como a MP que criou, em 2001, o Conselho Nacional de Cinema nunca foi votada no Congresso e adquiriu força de lei. Barretão lembrou como o projeto original baseava-se num tripé – o Conselho, como um órgão misto, do governo e da classe, formulando políticas públicas para o audiovisual, e a Ancine e a Secretaria do Audiovisual como órgãos executores dessas políticas. Ocorre que, por meio de uma série de emendas e modificações, a Ancine se apoderou do Conselho e passou a formular as políticas. Barretão não vê problema nenhum em voltar o Conselho para a Casa Civil e até diz que essa era uma reivindicação da categoria. Havia tentado falar com Cacá Diegues, mas ele só viu meu e-mail depois do fechamento. No texto que me enviou, Cacá diz que não se importa com a ida do Conselho para a Casa Civil e lembra, como Barretão, que era assim que estava na MP original. Acrescenta – “Segundo essa MP, o financiamento iria para a Industria e Comércio, e a secretaria do Audiovisual para o MinC. É normal que passem agora pro Min. da Economia e pra Cidadania.” O que Cacá, Barretão, Marisa Leão, Simoni de Mendonça, do Sindicato da Indústria do Audiovisual de São Paulo, Marcus Baldini, o diretor de Bruna Surfistinha e todo o mundo com quem falamos considera inaceitável, eu também, é essa história de que o Estado não pode financiar qualquer filme, tem de ter um programa ‘cultural’ que evite filmes como o Bruna. Cacá – “Absurdo! Nenhum presidente tem o direito de se arvorar em proprietário do cinema brasileiro, decidindo o que deve e o que não deve ser feito. Isso é típico das ditaduras.” Esse assunto ainda vai render – estava escrevendo a m… vai feder. Ao sair ontem de casa vi a chamada do Jornal Nacional sobre o repúdio de cineastas à tentativa de Censura do governo, e depois, já na rua, tomando um café, vi a leitura, no JN, da nota de repúdio da Globo aos ataques de Bolsonaro à jornalista Miriam Leitão. Confesso minha ignorância. Mea culpa – não sabia muita coisa sobre a história de Miriam nem de sua militância pró-meio ambiente, que descobri no documentário codirigido por Christiane Torloni. Bolsonaro, sempre reativo, botou a boca no mundo reagindo a críticas de Miriam e dizendo que ela nunca foi torturada pela ditadura militar. A Globo foi pra cima, em defesa de sua jornalista. Estamos nesse pé, os ânimos todos exaltados, mas a verdade é que as previsões seguem apontando para um futuro incerto, e não apenas o da Ancine.