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O horror, o horror: o segundo que dura uma eternidade

Luiz Carlos Merten

15 de novembro de 2015 | 09h49

Sexta-feira pela manhã fui ver Big Jato, o novo Cláudio Assis, com Ubiratan Brasil e Amilton Pereira. Gostei demais do filme ‘terno’ de Claudião e, se estivesse em Brasília, na divisão que cindiu o festival, teria torcido por ele. O filme ‘terno’. Deus inventou o c… do homem e o c… da mulher. Uma família que gira toda em torno da m… Não é exatamente uma comédia romântica, não? Fui para a redação do Estado, redigi a entrevista com Gabriela Duarte que está hoje no Caderno 2, e corri para o Bourbon para ver, ás 16h30, A Aliança do Crime. Peguei um trânsito danado de fim de tarde de sexta, mas voltei para a redação para redigir a crítica (edição de sábado) e a matéria sobre a caixa de faroestes da Versátil (domingo). Meio autista, preocupado com o horário, concentrei-me no que tinha de fazer e me alienei do resto. E o resto, descobri depois, eram os atentados em Paris. O horror, o horror. Eles conseguiram, de novo. Havia escrito aquele post sobre Virginia Mayo, a prova viva da boa vontade e misericórdia de Alá pelos homens, segundo o sultão de Bahrein. Durante séculos, considerando que o Corão, como a Bíblia, é uma obra de arte literária, Alá foi sempre o Misericordioso, como de Deus se diz que é o Todo-poderoso. E, então, nos últimos 30 ou 40 anos, Alá virou o jihadista sanguinário. A França, proclamou o Estado Islâmico, é seu alvo prioritário. Por que? Arrisco-me a dizer. Estava na Inter da Zero Hora, em Porto Alegre, e fui eu que comecei a redigir as matérias, com base nos telegramas de agências, sobre como um aiatolá exilado, Khomeini, passou a comandar manifestações cada vez maiores contra o Xá do Irã. Da França, país que o acolhera, como a tantos exilados, Khomeini saiu vitorioso e instituiu a república dos aiatolás. O mundo nunca mais foi o mesmo, mas talvez não percebêssemos quanto estava mudando. A França discrimina seus imigrantes, a frente de direita amplia seu avanço etc etc, mas e se a França for um símbolo? Avançar sobre a Europa e o mundo a partir de Paris? Paris que já foi o epicentro de Khomeini e valia uma missa, segundo o conquistador pagão Clóvis – uma missa em troca de uma coroa! O pior, para mim, é que nem a barbárie dos cento e tantos mortos na França me tira da cabeça uma coisa que virou obsessiva. Vi no Bourbon, na sexta-feira, antes de Aliança do Crime, uma propaganda do grupo gaúcho Zaffari. Uma peça bonita, bem feita. Quanto vale o tempo? A bolinha de sabão soprada por duas crianças? O abraço no almoço em família? Um tempo de alegria, de confraternização. Quanto vale o tempo do horror? Será que um dia ele se dissipa nas consciências? Quem estava no Bataclan, em Paris, e sobreviveu, vai se esquecer dos gritos, da carnificina? E o pai em Minas, fugindo do mar de lama com os filhos, o que terá sentido, o infeliz, quando a filha se desprendeu de seus braços? Um segundo apenas e teve ter sido uma eternidade. Alá, misericórdia!

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