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O horror, o horror

Luiz Carlos Merten

19 de junho de 2015 | 14h48

LOS ANGELES – Tem gente que diz que não aguenta mais filmes sobre o Holocausto e que tudo já foi dito. É?Aguardem por O Filho de Saul, premiado no recente Festival de Cannes. Da mesma forma, e com um presidente negro na Casa Branca, não aguentam mais os filmes que reconstituem os movimentos por direitos nos anos 1960, na ‘América’. Eu, pelo contrário, gosto de filmes como O Mordomo da Casa Branca e Selma, e me encanta justamente o cuidado com a reconstituição, não apenas nos detalhes cenográficos, mas na escolha e comportamento dos atores, sejam protagonistas ou figurantes. Pouco antes de assistir a Selma havia visto em Paris, na Gibert Joseph, um livro de fotos sobre Selma. Nenhuma me impressionou mais do que a da típica sulista – óculos, chapéu, bolsa, perfeitamente digna – cuspindo na manifestante negra. Mais que ódio, havia ali um desprezo profundo. Índio tem alma? Negro tem? Para cuspir daquele jeito, a pessoa tem de acreditar numa inferioridade… Não sei como quantificar. Ninguém fica cuspindo em vermes, até porque eles não têm consciência dos seus direitos nem lutam por eles.  Quando vejo manchetes como a de hoje no The New York Times e no The Los Angeles Times, dou-me conta de que os filmes precisam continuar a ser feitos e que o assunto nem de longe está encerrado. Um carinha criado numa comunidade negra, com amigos negros, entrou numa igreja de Charleston, na Carolina do Sul, assistiu um pouco ao culto e depois sacou da pistola, matando nove. Antes de iniciar o tiroteio, gritou que tinha fazer aquilo. Por que? Também na capa do Calendar, o Caderno 2 do TLAT, há uma chamada para a exibição hoje à noite, na TV daqui, do documentário 3 1/2 Minutes, 10 Bullets, sobre o assassinato de um garoto negro, mais de dois anos atrás. O pai relembra o momento em que recebeu o telefonema de um amigo do filho. “Mr. Davis, Jordan’s been shot.” Ninguém merece, seja preto, branco, amarelo, cor de rosa. É impressionante como o tempo passa e as coisas mudam para continuar as mesmas. Não, para piorar.  O papa fez mais um sermão ontem dizendo o óbvio – que o consumismo desenfreado não apenas é ferramenta do aquecimento global como contribui para a destruição da fraternidade e da solidariedade. Grande Francisco, pobre Francisco. O mundo finge ouvi-lo, com a reverência mas também com a exasperação que merecem os santos, e os loucos. Tudo me leva, de novo, à peça de mneu amigo Dib Carneiro, Pulsões, que recomeçou ontem no Rio, para novas funções. A discriminação e o preconceito só crescem. Ódios atávicos estão sempre aflorando. O xiismo não é só islâmico, está em toda parte. Nesses momentos, lembro-me sempre de Martin Ritt, que fez alguns dos mais belos filmes antirracistas de Hollywood. A Grande Esperança Branca, Sounder. Esse se chamou Lágrimas de Esperança no Brasil. Sounder era o nome do cachorro da família negra, a Baleia ‘deles’. Vidas secas. Só o amor salva da loucura – a loucura que virou o mundo.