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O horror, o horror

Luiz Carlos Merten

08 de maio de 2014 | 12h20

Luiz Carlos Merten/SALVADOR

Apesar da proximidade do mar, o calor é insuportável. A área conhecida como Aeródromo de Salvador é um imenso descampado de duna, com raríssima vegetação. É aqui que, nesta sexta-feira, está sendo filmada uma cena essencial de Irmã Dulce. O longa dirigido por Vicente Amorim é produzido por Iafa Britz. Os cínicos dirão que ela está fazendo tudo por dinheiro. Embora não seja uma judia ortodoxa, Iafa segue os preceitos religiosos. Jejua,. Comemora o Pessach. Chegou a se conectar para participar das festividades do última, já durante no seu atual período em Salvador.

Um judia que produziu um filme sobre espiritismo (Nosso Lar) e agora resgata um ícone cristão do Brasil. Tudo por dinheiro? “Não, não é só o dinheiro”, ela responde. Nosso Lar foi um projeto que caiu sobre ela, mas Irmã Dulce, não. Iafa foi atrás, a partir de uma conversa com Samuel Wainer, da Downtown, parceira da Migdal, a empresa de Iafa, no projeto. “Nosso Lar permanece comigo. Existem questões, ali, sobre a vida após a morte, que me tocam muito. E Irmã Dulce é uma guerreira. O que essa mulher fez pelos pobres é o que acho que gostaria de fazer pelos filmes. Filmes diversos, que reflitam nossa gente, nossa cultura. Uma vez que você se envolve com Irmã Dulce, nunca mais larga dela. Irmã Dulce entranha na gente.”

Iafa Britz, pan-religiosa? A própria Irmã Dulce era. “Isso aqui é a Bahia, gente. Tem uma cena no filme que acho genial. O encontro dela com Mãe Menininha do Gantois. Quem faz a mãe é uma atriz do Rio. O sincretismo é total.” O próprio set nesse dia de calor infernal parece sob medida para ilustrar uma tese de sincretismo cultural e religioso, mas é pura realidade. Em 1980, quando o papa João Paulo II esteve pela primeira vez na Bahia (e no Brasil), ele rezou uma missa no aeroclube. A cúpula da Igreja Católica fez o que pode para esconder Irmã Dulce do papa, mas ela foi, como fiel, e reconhecida pela multidão que chamava seu nome roubou a festa do próprio pontífice. O papa virou coadjuvante de Irmã Dulce.

Vocês, que acabaram de ler isso, não devem ter entendido nada. Mas eu explico. O mundo desabou hoje sobre mim. A caminho do Cine PE, havia visitado o set de Irmã Dulce, em Salvador, e imediatamente fiz a matéria para sair no Estado. Fiz um abre para o capa do Caderno 2 e o texto que vocês acabam de ler para iniciar a matéria de dentro. Terminei sendo infeliz, porque a associação de judeu com dinheiro pegou muito mal. Estava querendo justamente o contrário, mostrar como minha amiga Iafa Britz – espero que ainda seja minha amiga – é uma pessoa bacana, fazendo esses filmes pan-religiosos, e que ficam com ela, não são operações caça-níqueis. Sei como é importante para ela fazer os filmes bem-feitos, e que tenham retorno de bilheteria, mas nunca me passou pela cabeça que poderia estar reforçando o preconceito antijudeu. Talvez me arrependa de uma palavrinha a mais, mas que na hora não pesei. Tudo por dinheiro? Não, não é só pelo dinheiro. Poderia, talvez devesse ter tirado o só, mas é que Iafa, como Marisa Leão e Walkiria Barbosa, são produtoras profissionais, e responsáveis. Não contabilizam o sucesso só em termos de dindi entrando na conta bancária, mas correm atrás dele. O sucesso é retorno do que foi entregue com carinho, do que foi bem-feito. O Merten é antissemita? A pergunta foi feita por aquele médico da TV. Paro, para não ofender o cara. Imaginem, eu, que comecei minha vida profissional no Colégio Israelita de Porto Alegre e guardo ótimas lembranças. Pensem – o Merten, simpatizante nazista? Onde ia pendurar a suástica, se já ia estar portando tantos signos discriminatórios? Vejamos. Defeito físico e outras coisas mais. Teria ido quantas vezes para o campo de concentração e o forno crematório? Não se brinca com essas coisas. Estou arrasado. Ouvi coisas que me feriram, mas foi o preço. Como homem da palavra, falhei. O que queria que fosse celebração, foi visto como discriminação. E eu lamento isso. Desculpo-me. Nunca foi a intenção.

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