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O homem que viveu nos seus sonhos (e o meu abraço à Margô)

Luiz Carlos Merten

18 de maio de 2020 | 12h01

Fui dormir já passado da meia-noite, traçando um plano para a minha manhã. Queria concluir o post sobre Guerra e Paz, mas antes pensava em acrescentar outro post, intermediário (daqui a pouco). Tuna Dwek tem sido solidária nesse período difícil. Liga para saber como estou, para conversar, para dar notícias. Hoje ligou cedinho para comunicar que morreu – ontem – a mãe de nossa smioga Margarida Oliveira, a Margô, que não há, nesse mundo do cinema, quem não conheça. Querida Margô. Ela me havia contado que a mãe fora internada em Marília, com pneumonia. Quase 90 anos, temia que não fosse resistir. Conversei com a Margô nessa manhã. Juntos, à distância. O mais duro nesse transe é que as pessoas estão tendo de enterrar seus mortos sem um abraço, um carinho. Margô me falou de sua mãse, tão boa. Trabalhadora. Podia estar falando da minha mãe, de quantas mães? Mal terminei de falar com a Margõ e me ligou meu editor, Ubiratan Brasil, para dar conta da morte de Michel Piccoli, aos 94 anos. O anúncio foi feito por Gilles Jacob, ex-diretor-geral do Festival de Cannes e grande amigo de Piccoli, que, inclusive, assina com ele seu livro autobiográfico. Piccoli morreu no dia 12, de um acidente cárdio-vascular. Foi ator de Jean-Luc Godard, Luís Buñuel, Marco Ferreri e de quase todo mundo que conta no cinema francês. Foi o ator de Claude Sautet em As Coisas da Vida, Sublime Renúncia, Mado e Vicente, Paulo, Francisco e os Outros. Escrevi, no texto que já enviei para o jornaal, que Sautet fez, sobre o amor e o casal, os grandes filmes que François Truffaut gostaria de ter feito. Não é povocação. Acredito piamente. Piccoli filmou bastante com Manoel de Oliveira. Se tivesse de escolher uma só cena dele, e por mais que goste de Sautet, seria num filme de Oliveira. Vou para Casa. O ator que perde a família num acidente. Ele olha o sapato desamarrado. Não diz nada, mas o dilema é claro. Shakespeariano – amarrar ou não amarrar? To be or not to be? Toda a vida se resume a uma questão assim pequena. O livro autobiográfico a que me referi antes chama-se J’ai Vécu dans Me Rêves. Piccoli dizia que conseguiu viver muito mais que sonhou. Não consigo imaginar epitáfio mais belo. E ao escrever isso me lembro do livro da dra. Ana Cláudia Quintana, que tenho em algum canto na minha casa. Comprei no quiosque do saguão do Belas Artes, num dia em que estava me sentindo miserável. Estamos atarantados com a quantidade de mortes da Covid 129. Face à banalização, e ao medo que ela provoca, até esquecemos que a morte pode ser, e é, ‘um dia que vale a pena viver’.

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