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O homem que não quis ser astro

Luiz Carlos Merten

19 de fevereiro de 2014 | 11h54

PARIS – Ontem à noite, terminei de escrever meu post sobre os filmes do dia, estava cansado e queria dormir logo. Mas fiquei devaneando sobre os filmes e sobre Pia Degermark, a Elvira Madigan. Lembrei-me de que ela fez um filme de espionagem adaptado de John Le Carré, uma daquela histórias típicas dele, sobre um espião traído pelo establishment – A Guerra no Espelho, acho que de Frank Pierson.  Uma coisa leva à outra e eu me lembrei do Christopher como o tenente inglês amante da filha de Ryan. Pensei comigo – onde foi parar aquele cara? Não acreditei ao folhear hoje o The Times, de Londres, no café da manhã. Nos obituários, o jornal dá uma notinha sobre a morte da ex-menina prodígio Shirley Temple e uma página inteira sobre Jones – uma página! Resolvi ler, porque, afinal, o cara devia ser mais importante do que imaginava, talvez no teatro. Encontrei uma história incrível, que daria filme, romance, seja lá o que for. Christopher Jones chegou a ser considerado o sucessor de James Dean e foi um bon vivant que comeu algumas das mais belas mulheres do seu tempo, incluindo a sueca Pia. Em Roma, virou amante de Sharon Tate, que já era casada com Roman Polanski. Queriam se casar, mas ela, grávida do marido, resolveu que primeiro teria o filho ao lado dele. Enquanto isso, um problema de agenda tirou Marlon Brando do elenco de A Filha de Ryan e David Lean chamou Christopher Jones para substituí-lo. Sharon Tate foi assassinada por Charles Manson e seus adoradores do Diabo em Hollywood, Jones surtou. Teve um breakdown, tentou até se matar, mas terminou o filme. Para um garanhão, é curioso que sua maior dificuldade tenha sido fazer as cenas com Sarah Miles. Dizia que não sentia nada por ela. Sara irritou-se, mas depois disse que entendia o pobre Christopher, tão apaixonado por Sharon. O épico romântico e intimista de Lean deveria tê-lo transformado num astro, mas por muitos anos ele se desligou do cinema, e de tudo. Continuou bebendo e comendo – metaforicamente -, até o último centavo. Rejeitou o apelo de Quentin Tarantino, que escreveu para ele um dos papeis principais de Pulp Fiction. Virou escultor, encontrou uma mulher que o colocou nos eixos e teve quatro filhos. Não sei de vocês, mas a história da vida de Christopher Jones me deixou chapado. Nascido no Tennessee, seu grande papel no teatro foi numa peça de… Tennessee Williams, com Bette Davis. Ao ler isso, pensei que era O Doce Pássaro da Juventude, mas foi em A Noite do Iguana. Que papel Bette pode ter feito – o de Ava Gardner na adaptação de John Huston? Como não estava no jornal, não sei o espaço que foi dado à morte de Christopher Jones, mas deve ter sido pequeno. Não sabia nada disso que me informou o de The Times. O homem que não quis ser astro…

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