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O fim de uma era, o fechamento da Cahiers (e do Cinearte)

Luiz Carlos Merten

07 de março de 2020 | 20h34

Já estou de volta em São Paulo. Cheguei nesta manhã, mas gostaria de ter ficado no fim de semana, se não fosse tão caro remarcar a passagem. O motivo tem nome. O festival Toute la Mémoire du Monde, na Cinemateca Francesa. Isabelle Rossellini é a madrinha do evento que homenageia Philip Kaufman e Rob Legato, e neste sábado, 7, pela diferença de horário – a França está quatro horas à frente -, ela já apresentou a versão restaurada de Angst/La Paura/O Medo, que seu pai, Roberto Rossellini, realizou em 1954, para a interpretação de sua mãe, Ingrid Bergman. Amanhã tem mais e, no domingo, 8, Isabella apresenta Viaggio in Italia, lançado no Brasil como Romance na Itália, de 1953, que talvez seja a parceria mais famosa da dupla. Revi, há uns dois anos, a versão restaurada de Stromboli, que foi o primeiro filme que Ingrid e Roberto fizeram juntos. Ficou no imaginário coletivo dos italianos, e no meu. Nanni Moretti e Marco Tuilio Giordana o homenagearam em obras memoráveis, Gioordana em A A Mulher Juventude, que ainda está em cartaz nos cinemas. Passei por uma banca e vi há pouco a capa da Veja – Ele já está entre nós. ‘Ele’, o coronavirus. Não pude deixar de pensar em Invasores de Corpos, o clássico de Don Siegel, de 1955, que teve vários remakes. O 8.º Festival Internacional do Filme Restaurado, de Paris, revisa o original e suas diferentes versões – as de Kaufman, Abel Ferrara e Oliver Hirschbiegel. Ficou faltando a de John Carpenter – They Live/Eles Vivem, certamente porque o filme de 1989 não foi restaurado. Escrevo o post olhando para a Cahiers de março, a que já me referi em outro post, sobre os filmes mais esperados do ano (e com a Benedetta de Paul Verhoeven, Virginie Efira, na capa). Comprei várias revistas e livros de cinema em Lisboa, Berlim e Paris, que foram minhas três escalas nessa viagem. Pode ser a última Cahiers, já que a redação inteira demitiu-se no final de fevereiro, em protesto contra a venda da revista para um coletivo de proprietários de provedores de TV a cabo, de sítios de internet e produtores de filmes. A redação sentiu-se ameaçada, alegando conflito de interesses – como criticar com isenção as produções dos donos? -, e todo o mundo caiu fora. Uma decisão coletiva. Os novos proprietários poderão até organizar nova redação, mantendo o título, que agora é deles, mas não será a mesma coisa. É o fim de uma era, e por menos que me identificasse com os críticos da Cahiers não posso deixar de assinalar essa ideia, triste, do crepúsculo da publicação que foi o berço da nouvelle vague, no fim dos anos 1950. O que me leva a outra despedida. Ademar Oliveira teve de fechar o Cinearte. Depois que as duas salas do Conjunto Nacional perderam o patrocínio da Petrobrás, ele ainda tentou manter o espaço, mas o aluguel proibitivo, e o condomínio mais ainda, dada a extensão do conjunto todo (salas, lobby, bilheterias, etc), levaram a esse desenlace, que já vinha sendo anunciado. Recapitulando, o Belas Artes esteve ameaçado de fechar quando perdeu o patrocínio da Caixa. Seria uma tragédia para a cultura da cidade, mas o Belas Artes foi salvo pela incorporação de outra marca – Petra. Na guerra das cervejas, bem que alguma outra poderia ter vindo em socorro do Cinearte.

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