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O fantástico, segundo J.A. Bayona (sobre A Monster Calls)

Luiz Carlos Merten

02 Março 2017 | 10h25

Fui ver ontem na Sala Olido – Circuito SPcine – o longa de J.A. Bayona A Monster Calls, Estava no hotel em Paris, um frio do cão lá fora. Na TV, no canal TVE, TV España, assisti a parte da cerimônia de premiação do Goya, o Oscar espanhol. Emma Suárez, a Julieta, foi melhor atriz, e foi também melhor coadjuvante, por La Próxima Piel; Tarde para la Ira, de Raul Arévalo, o melhor filme; e Bayona,o melhor diretor, derrotando Pedro Almodóvar, por Julieta, e o tal Arévalo. Como não me lembrava do nome desse diretor, e nem sei quem é, fiz agora uma pesquisa na rede. Encontrei, nas pesquisas correlatas, uma tal doença rara de Brad Pitt. Cliquei para ver o que era. O ex de Angelina Jolie sofre de prosopagnosia, uma forma de lesão cerebral – no caso dele, causada por drogas, Brad admitiu – que o impede de identificar os rostos das pessoas. O termo foi criado pelo médico Joachim Bodamer, que identificou a doença em 1947, valendo-se da justaposição de duas palavras gregas – prosopon, que quer dizer rosto, e agnosia, desconhecimento. De minha parte, não esqueço um rosto, mas os nomes… Volta e meia fico com cara de paisagem lunar quando algumas pessoas, das quais não lembro o nome, vêm falar comigo. E a m… é que a gente fica – eu fico – com vergonha de perguntar o nome. Parece pouco caso. Muito interessante, e cruel, essa tal prosopagnosia. Estou certo de que haveria – haverá – um milhão de pessoas dispostas a ficar permanentemente ao lado de Brad para ajudá-lo em seu transe. Volto ao Bayona – J.A. é de Juan Antonio. É o diretor de O Orfanato e O Impossível. A Monster Calls, Un Monstruo Viene a Verme em espanhol, ganhou nove dos 12 Goyas a que concorria. Chama-se no Brasil 7 Minutos Depois da Meia-Noite. É a hora em que aparece o ‘monstro’, um homem árvore que fala com a voz de Liam Nesson. Achei o filme original, singular, muito bonito. Como ainda tem sessões no fim de semana, recomendo – caso não tenham visto. O protagonista é um garoto, muito expressivo, que sofre bullyng na escola e cuja mãe está morrendo. Ele invoca o monstro, ou o monstro que o chama? O ser fantástico, de qualquer maneira, cumpre a função dramática de liberar o garoto de suas fobias, representadas pelo mesmo pesadelo, todas as noites – a terra cede, engole a casa e tudo ao redor, e o garoto, na ponta do precipício, tenta segurar a mãe, mas a mão dela vai escorregando, escorregando… É interessante o cinema de Bayona. 7 Minutos esclarece O Impossível, e como O Orfanato, todos os três abordam o universo da infância e suas carências. No final, que não vou dizer qual é, vem a revelação, que fecha o sentido de tudo. Bayona deve ter levado o Goya de direção porque seu trabalho é, realmente, um tour de force. O filme combina efeitos especiais, animação e, claro, live action, o todo compondo uma unidade muito harmoniosa. Te cuida, Guillermo del Toro, porque, em matéria de fantástico, J.A. não é fraco não. Nesta quinta, estreia Logan, o novo capítulo da saga de Wolverine – Wolverine Mortal? -, que tem seus méritos, mas não é grande coisa. Vai arrebentar na bilheteria – afinal, é Hollywood. É pregar no deserto, mas o público faria muito melhor vendo 7 Minutos após a Meia-Noite. Só para constar, Bayona tem a seu crédito vários curtas, vídeos e episódios de TV, mas apenas três longas. Por eles, ganhou três vezes o Goya de direção (a primeira, como diretor estreante). Como nunca havia visto a cerimônia, achei curioso (engraçado?) que o troféu seja chamado de ‘cabezón’. O motivo é evidente, basta ver a estatueta.