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O Êxodo, por Ridley Scott

Luiz Carlos Merten

14 Dezembro 2014 | 12h10

Howard Hawks explicava o que, para ele, era o motivo do fracasso de Terra dos Faraós, dizendo que não fazia ideia de como os antigos egípcios se movimentavam. Parece irrelevante, mas a questão sequer deve ter passado pela cabeça de Ridley Scott. A estatuária egípcia, os relevos, tudo sugere uma sociedade estratificada, de movimentos rígidos. Na primeira cena de Joel Edgerton como Ramsés, ele está jogado na poltrona, com a perna sobre o apoio. Mais informal, impossível. Ridley Scott lixa-se para a (grande) história. Ele cria seu personagem para o público de 2014.  O começo de Êxodo – Reis e Deuses, Deuses e Reis, sei lá, prenuncia um desastre em que o filme, felizmente, não se converte. Ridley Scott tomou a iconografia de Serra Pelada, por Sebastião Salgado, como modelo para o canteiro de obras das pirâmides. É impressionante. Temo, porém – vou rever o filme -, que ele não tenha resolvido direito os problemas da proporção e da profundidade de campo porque tudo me pareceu maquete, como aquele caminhãozinho de brinquedo no sertão imaginário de Brincante, de Walter Carvalho, com (e sobre) Antônio Nóbrega. Não sei qual diretor de elenco teve a ideia de propor a Ridley Scott que John Turturro fosse o velho faraó. É um desastre de proporções épicas – inacreditável! -, como também foi loucura o fato de o diretor recorrer a sua amiga Sigourney Weaver para ser a mulher do faraó, o mãe de Ramsés. Sigourney nem fala. Quer dizer – deve ter uma ou duas falas. E seu figurino é de baile de carnaval. A fantasia que faltou nos antigos bailes do Teatro Municipal e do Hotel Glória, no Rio. O horror, o horror. Quando as coisas parecem perdidas, o filme começa a melhorar. A mulher de Moisés/Christian Bale é deslumbrante – como mulher, mais que como atriz. E o achado do filme é o Deus menino. Em Os Dez Mandamentos, Cecil B. de Mille não encarou o desafio de dar uma forma a Deus. Quando Moisés/Charlton Heston fala com o Todo-Poderoso é através da sarça ardente. Ridley Scott usa o menino. Deus convoca Moisés para libertar seu povo – escravizado no Egito -, mas para isso precisa que ele seja um general. Moisés decepciona-O. Discutem. Moisés interpela o Deus-menino. Em raros momentos, Deus tem a inocência da criança. É duro, autoritário e cruel. Quando sopra no ouvido de Moisés o que vai fazer como última praga – a morte dos primogênitos -, Moisés recua, apavorado, mas o Deus-menino mantém-se inabalável. Muito interessante. De Êxodo, pode-se dizer o que muita gente andou escrevendo sobre Irmã Dulce, de Vicente Amorim. O filme não tem conflito – talvez seja a questão da religiosidade. O conflito não é entre Moisés e Ramsés, mas entre o faraó, que se proclama deus, e o Deus dos hebreus. Não há conflito porque Deus, mesmo menino, tudo pode. O que disfarça é o show de efeitos na (re)criação das pragas bíblicas. Ficamos sentados vendo até onde Deus – e os técnicos de Hollywood – podem chegar. Ataques de jacarés, de gafanhotos. A vidente, o médico da corte, nem a religião nem a ciência conseguem explicar o que está ocorrendo. O filme torna-se crítico de si mesmo, como Gladiador já era – o pão e circo da arena romana comparados aos blockbusters. Ridley Scott é melhor diretor do que sonham seus (medíocres) críticos. Êxodo é um filme de autor, como Falcão Negro em Perigo e Cruzada. O diretor talvez tenha visto Kedma, de Amos Gitai. Em plena travessia do deserto, o velho Moisés tem sua última visão de Deus, e ele permanece um menino. O guardião das Tábuas da Lei antecipa o problema. Os hebreus continuam vagando no deserto, mas ao chegar a Canaã vão encontrar a terra ocupada. Para os que lá habitam – os palestinos? -, serão invasores, mesmo invocando seu direito divino, de povo eleito. Guerra e guerra – Falcão Negro já nos mostrou quanto de perde nelas. Êxodo talvez tenha mais defeitos que qualidades, mas é intrigante, fascinante. Não sei como os grupos religiosos vão reagir, ou se já estão reagindo. Mas aquele Deus-menino, e caprichoso, que prega a guerra por seu povo, é um personagem e tanto para se refletir sobre o mundo em que vivemos. E pode não significar nada para os outros, mas confirmou para mim que Ridley sabe o filme que fez. Não é por acaso que o dedica ao irmão, Tony Scott.