As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O existencial e o social em Santiago

Luiz Carlos Merten

27 de setembro de 2020 | 19h36

Jantei ontem com meu amigo Zé Mário, o Zé do Conto – procurem os vídeos dele no YouTube. Cheguei em casa e, zapeando, revi Santiago no canal Curta! Misturei vinho com grapa, mas não sei se foi isso que me fez dormir até 11 h desta manhã, quando Carlos chegou, e me acordou, para a físio. Fiz o meu material do dia, emendei com a cabine da tarde do É Tudo Verdade – o chinês Cidade do Sonho -, zapeei e, bingo!, estava passando de novo o Santiago. Lá fiquei eu vidrado nas imagens. Já virei folclórico por considerar o filme de João Moreira Salles o maior documentário brasileiro. Como assim, e Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho? Reconheço que é mais fácil priorizar o Coutinho, com seu personagem que coloca, duplamente, as questões da terra e da ditadura militar no Brasil, mas em matéria de Coutinho eu sou o cara que prefere Edifício Master. A par de ser o maior documentário, Santiago também é o mais viscontiano filme feito no Brasil. O próprio João esclarece no final – Santiago é filmado à distãncia, não existem primeiros planos de seu rosto, só de suas mãos. Essa escolha, que ele diz que não foi consciente, fez com que caísse a ficha durante a montagem. Naqueles cinco dias que duraram as filmagens, e Santiago, o filme, só foi retomado mais de dez anos depois, havia uma distância que o filme eterniza. O filho do patrão e o mordomo da casa do banqueiro. Santiago e seus mortos, João e os mortos dele – a mãe, a quem ele dedicou outro documentário, mais recente. Sempre achei a questão social muito forte em Santiago – o mordomo é um penetra na casa grande -, mas ontem e hoje, as duas citações cinematográficas, ao musical de Vincente Minnelli (A Roda da Fortuna/The Band Wagon, com Cyd Charisse e Fred Astaire) e a Yasujiro Ozu (Viagem a Tóquio), me instigaram mais que nunca. Afinal, estamos nesse período de confinamento. Quem sou eu para contestar Albert Camus, que considerava o suicídio o único verdadeira problema filosófico, mas, para mim, a dúvida é mais existencial – o que é a vida, afinal? O que é o cinema? Santiago não para de me inspirar. Cada vez que revejo o filme fico mais emocionado. O curioso é que a dança das mãos me lembrou muito o Jean-Claude Bernardet que viaja no butoh de Kazuo Ohno em Antes do Fim, de Cristiano Burlan, o que até faz sentido, mas de uma forma muito mais intensa e irracional que nem sei se entendo, me veio o Arturo Ripstein de O Diabo Entre as Pernas. Mal terminou o Santiago e o Curta! já emendou mais um episódio da série de Slavoy Zizek, O Guia Pervertido da Ideologia, e outro daquela que vem discutindo o movimento negro nos EUA. Estava tão siderado que nem pensei no blog. Agora, sim, Santiago. E,ono próximo post, Gramado.

Tendências: