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O estupro de Maria Schneider e outras histórias

Luiz Carlos Merten

06 Dezembro 2016 | 00h16

Tanta coisa que eu tinha a dizer… Ferreira Gullar! Foi o Dib quem me informou, no almoço de ontem, que ele havia morrido. Depois do CCXP, e do almoço, fui para o jornal porque tinha um monte de matérias. Zanin terminou fazendo o texto sobre Ferreira Gullar e o cinema. Confesso que não li. À noite, no jantar, voltei ao tema com o Dib. Lá vou eu fazer inimigos. Não sou louco de não apreciar os grandes poetas brasileiros, mas confesso que tenho problemas. Prefiro os grandes líricos – Manuel Bandeira, Manuel Bandeira, Manuel Bandeira. Não é que não ache que a língua portuguesa não se presta à poesia – Camões! -, mas a musicalidade do espanhol me soa melhor. Não foi por acaso que todos aqueles poetas latinos de língua espanhola ganharam o Nobel. Dib recitou o Traduzir-se, ou Traduzir-me, que talvez fosse o melhor poema de FG. Eu, com certeza, o prefiro ao Poema Sujo. E o cara, não é porque morreu que vamos esquecer, virou um p… reacionário sobre arte e até política. Enfim, que vá em paz. Fiz hoje, para TV, um destaque sobre El Dorado e outro texto sobre a confissão de Bernardo Bertolucci admitindo o estupro de Maria Schneider. Pobre Maria! Passou a vida, e morreu, bradando que foi abusada por Bertolucci e Brando na famosa cena da manteiga de Último Tango em Paris, mas, claro, ninguém lhe dava atenção. Era louquinha, lésbica e Bertolucci, afinal, é um grande diretor, Brando, o maior ator. Numa gravação dada como perdida, Bertolucci admitiu que Brando e ele improvisaram pela manhã a cena que filmaram à tarde, sem avisar Maria de seu teor. Bertolucci diz que se sentiu mal, mas para o filme foi melhor. Ele queria captar a reação da mulher humilhada ao ser sodomizada, não a interpretação da atriz. Jesus! Lembrei-me de Richard Brooks. Jean Tulard conta, no Dicionário de Cinema, que ele nunca dizia ‘Corta!’, no fim de uma cena, mas ‘Obrigado’. Taylor fez com ele Gata em Teto de Zinco Quente. Maggie the Cat. Talvez seu maior papel. Às vésperas do início da filmagem, caiu o avião de Michael Todd, matando o marido da estrela. Brooks quis anular o projeto, retardar a filmagem. Disse e Liz que era só um filme. Ela insistiu. Sua vulnerabilidade está toda na tela. Obrigado, Liz. Bertolucci a teria estuprado emocionalmente, se fosse preciso, convencido de que seria melhor para o filme. Tudo pela arte. Essas coisas mexem comigo. As denúncias de abuso contra Woody Allen. OK. Soon-Yi não era filha dele, mas era filha adotiva de sua mulher e isso devia significar alguma coisa. El Dorado! Howard Hawks realizou grandes filmes de ‘gênero’. Filmes noir, de gângsteres, comédias, westerns. Em 1959, fez Rio Bravo, que no Brasil se chamou Onde Começa o Inferno, estabelecendo um paradigma. O xerife John Wayne agrega grupo heterogêneo para defender cadeia prestes a ser invadida por pistoleiros que querem libertar companheiro preso. A afirmação do profissionalismo. Em 1967 e 70, Hawks fez duas variações da mesma história. El Dorado e Rio Lobo. Na primeira, o pistoleiro John Wayne ajuda o xerife bêbado Robert Mitchum a defender seu território. Ao grupo incorporam-se um velho, inútil mas nem tanto, e um jovem que não sabe atirar. E as mulheres que, no cinema de Hawks, sempre aumentam o perigo dos homens. Isso valeu, não poucas vezes, ao grande diretor a acusação de misoginia. El Dorado, 50 anos (49, para ser exato). Hawks minimiza a história, investe nas relações. O filme termina com dois velhos estropiados, Wayne e Mitchum. Adeus aos mocinhos. John Ford já encerrara sua obra e Sam Peckinpah faria, dali a dois anos, The Wild Bunch/Meu Ódio Será Sua Herança, sua obra-prima sobre os pistoleiros do entardecer. Adoro essas viagens que o cinema me proporciona. Agora, vou dormir. Amanhã tem mais.