As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O espírito de lobo no belíssimo Alfa

Luiz Carlos Merten

08 Setembro 2018 | 11h01

Devo ser mesmo um cara esquisito. Achei Corra! muito meia-boca, gostei de O Animal Cordial e As Boas Maneiras como filmes de gênero, mas confesso que siderei com A Freira. Há tempos não via um filme de terror tão bom, tão ‘climático’, e ainda por cima uma pungente história de amor – o amor sem futuro de Frenchie pela noviça. A crítica de A Feira está no Caderno 2 deste sábado. Achei também muito interessante o documentário Camocim, de Quentin Delaroche, sobre a disputa eleitoral numa cidade do Nordeste, vista pelo ângulo da garota que organiza a campanha de um dos candidatos. Na terça, Quentin e Mayara Gomes, a garota, estrarão na cidade para encontros com jornalistas – já me escalei para falar com os dois. Mas agora meu assunto vai ser Alfa. Desde que vi o trailer fiquei muito atraído pela história da amizade entre o garoto e o lobo. Achei as imagens muito bonitas, muito rigorosas. Fui ver ontem à tarde o Alfa. Amei. Não fazia a menor ideias de quem dirigia – descobri no final que era Albert Hughes. Albert, só? E cadê o irmão dele, Allen? Os Hughes Bothers dirigiram Do Inferno e O Livro de Eli. Vivem uma relação complicada de amor – e ódio (?). Albert havia abandonado os EUA para morar na República Checa, não sei se voltou à América. Alfa é uma fábula de sobrevivência. O garoto acompanha o pai e os demais guerreiros das tribo numa caçada a búfalos. É dado como morto. Mas Keda/Kodi Smit McPhee sobrevive. É atacado por lobos e fere um. Salva o animal. São dois outsiders, Keda desgarrado da tribo, o lobo, da sua matilha. O garoto inicia a jornada de volta ao lar – um dos temas por excelência do cinema de Hollywood. O lobo o segue. Enfrentam perigos – o lobo quase morre para salvar Keda do ataque de uma fera. Vi o filme quase sem fôlego. Quando Keda carrega o lobo ferido nos braços, atravessando nevascas, chorei de soluçar. O final revela uma surpresa, e diz respeito a gênero. Mother. O que Darren Aronofsky talvez gostaria de ter feito, mas não soube, ou não conseguiu. Lobos domesticados, e homens. A caçada vai continuar. Lembrei-me muito dos filmes do francês Jean-Jacques Annaud, que deve ter sido uma inspiração para Albert Hughes. A visão da pré-história de A Guerra do Fogo, as histórias de animais de O Urso, Era Uma Vez Dois Irmãos e Espírito de Lobo. Como é possível criar ficções com ursos, tigres, lobos? Como fazer com que os animais atuem? Annaud sabe – Albert Hughes, também. Não me chamo Luiz Carlos Merten se não for rever, e triver, o belíssimo Alfa.