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O espetáculo não pode parar

Luiz Carlos Merten

10 Dezembro 2016 | 13h08

RIO – Terminei de ler O Inverno e Depois, de Luiz Antônio de Assis Brasil – sempre esqueço deste ‘de’. Emocionei-me muito e fiquei viajando no belo filme que algum cineasta talentoso poderia fazer, contando a história do violoncelista Julius e da clarinetista Constanza Zabala. A obsessão dele pelo concerto para orquestra e violoncelo de Dvorak. Chega o momento, na vida de um homem, em que tudo pode depender dessa peça. Uma história de amor muito íntima, um homem dividido, dilacerado. E as paisagens. Würzburg, na Alemanha, a (no feminino) pampa e São Paulo, o Teatro Municipal e a praça anexa. Foi preciso um escritor gaúcho para dar nobreza àquela área no Centro de Sampa. Cheguei quarta ao Rio para visitas a sets. Cláudio Fontana está apresentando O Godot de Elias Andreato no Sesc Copacabana. Vieram Gabriel Villela e Dib Carneiro. Cá estamos, numa programação intensa de teatro. Fomos ver ontem, Dib e eu, o Online, novo espetáculo de Paulo Gustavo, que vai para São Paulo, após o carnaval. Na plateia estava Teuda Bara, com quem Paulo, efetivada a saída do Vai Que Cola, vai fazer a nova série do Multishow, A Vila. Entrevistei-o pela próxima estreia, no dia 22, de Minha Mãe É Uma Peça 2 e ele me contou tudo sobre A Vila e também sobre o megalançamento de Minha Mãe 2. Serão mil telas para Paulo Gustavo, e a ideia é mantê-las – todas! – até meados de janeiro, quando saem os indicados do Oscar e o mercado, afinal, é formatado para Hollywood. Mil telas! Pediram-me, no Guia do Estado, o Divirta-se, uma lista de melhores do ano. Três nacionais e três internacionais. Não sei se saiu, porque entrei numa roda viva e esqueci-me de mandar a linha sobre cada um deles, apoiando a escolha. Os nacionais – Aquarius, Boi Neon, Cinema Novo. Os estrangeiros – O Cavalo de Turim, Os Campos Voltarão e Botão de Pérola. Ontem, após o Paulo Gustavo, fomos jantar no La Fiorentina com a prima de Gabriel, Dani, e o marido, que foi primeiro bailarino do Municipal do Rio. Submeti o pobre Marcelo Misailidis a um interrogatório. Tudo sobre os maiores nomes da dança, que ele conheceu. E o cara, poderoso, ganhou não sei quantos Estandartes de Ouro, criando, como coreógrafo, a comissão de frente de não sei quantas escolas no maior espetáculo da Terra. A próxima terá como tema Iracema, a virgem dos lábios de mel. ‘Além, muito além daquela serra, nasceu Iracema.’ Assim começa José de Alencar seu livro famoso. E o fim – ‘Tudo passa sobre a terra.’ Mais conciso só o fim do Don Segundo Sombra, de Richard Guiraldes – ‘Me fui como quien se desangra.’ O encontro do erudito e do popular. Cada comissão daquelas tem um conceito. e são lindamente executadas para encher os olhos e alegrar a alma. Marcelo deveria escrever um livro – eu fiquei siderado. Tenho de acrescentar que a Fiorentina, sendo um restaurante tradicional como é, me encanta pelas fotos e assinaturas (de autógrafos) que enchem suas paredes. Tem uma de Anselmo Duarte, na qual me amarro. Anselmo recebeu o título de cidadão carioca, em 1972. Tem ali a justificativa para a distinção, e a letra dele, acrescentando que queria receber o título no restaurante. O jovem Anselmo era um deus. Comeu as mais belas mulheres de dois continentes. Pertinho dele, outra foto reunindo Walmor Chagas, Tarciso Meira, Leonardo Villar e Jardel Filho, cada um mais belo que o outro, na eterna juventude captada daquele momento. Jardel! Nosso poeta Paulo Martins de Terra em Transe. As mulheres todas nas paredes da Fiorentina. Aquilo devia ser tombado, se já não foi, como patrimônio cultural brasileiro. O show, como dizia Bob Fosse, não pode parar. Hoje, o teatro continua, com a Antígona de Andréa Beltrão, no Poeirinha.