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Ó, dúvida cruel

Luiz Carlos Merten

04 de novembro de 2012 | 12h41

Ando à beira de um ataque de nervos com a quantidade de comentários que me entram através de uma tal de WordPress. É todo tipo de propaganda, inundando e travando minha caixa. Seria simples bloquear a procedência, mas ou eu me engano muito ou existem duas ou três pessoas que frequentam o blog, acho que a Pedrita, que também me chegam via WordPress. Será que me engano? Dá sinal de vida, Pedrita. Embora tenha votado em ‘A Bela Que Dorme’ para melhor filme da crítica, tenho de dizer que vi ontem na repescagem da Mostra outro filme que, com ‘Além das Montanhas’, de Cristian Mungiu, também me faria vacilar quanto a dar o prêmio para Marco Bellocchio. Vocês viram ‘La Noche Enfrente’, o Raul Ruiz póstumo?  Teve gente que saiu meio indignada da sessão no CineSesc, dizendo que não tinha entendido nada. Eu fiquei siderado, e não estou nem aí para entender ‘tudo’. Teria, terei de ver o filme mais umas dez vezes para tentar dar conta da riqueza e complexidade das intenções de Ruiz. O filme mistura duas tendências que me deixam louco no cinema dele, o esoterismo de ‘L’Hypthèse du Tableau Voleau’ e a fascinação pela aventura de ‘Les Trois Couronnes du Matelot”. Ruiz investiga as relações entre as palavras e as imagens, cria signos, reflete sobre arte e vida, realidade e imaginação e oferece seu testamento com base em autores que admirava, como Jean Giono e Robert Louis Stevenson. Para hoje, me havia programado para ver David Lean à tarde, ‘Lawrence da Arábia’, e à noite o vencedor do prêmio do júri como melhor ficção, ‘Preenchendo o Vazio’, de Rama Burshtein. Estou vacilando, mas não com o filme da noite. Justamente com o clássico de Lean, cuja simetria audiovisual todo mundo me garante que está deslumbrante. Ocorre que tenho filmes do circuito que preciso ver para escrever – ‘Frankweenie’ e ‘Magic Mike’, de Tim Burton e Steven Soderbergh. E também que descobri ontem que a Sala Olido está mostrando uma programação chamada ‘Cineastas do Nosso Tempo’, baseada na série famosa de Andre Labarthe para a TV francesa. Ontem, passaram as duas partes da emissão ‘Jean Renoir, le Patron’, de Jacques Rivette, seguidas de ‘A Regra do Jogo’, do filho de Auguste. Hoje, teremos o célebre encontro de Fritz Lang e Jean-Luc Godard, ‘O Dinossauro e o Bebê’, um diálogo em oito partes, seguido de ‘O Desprezo’, o mais ‘clássico’ (se possível) e belo filme do enfant terrible da nouvelle vague. O plano-sequência inicial de ‘O Desprezo’, no estúdio, é de ajoelhar e rezar e a versão de Homero que Lang faz com estátuas – o homem moderno não é mais Ulisses, e por isso a mulher, Brigitte Bardot, também não encarna mais Penélope, a que espera – é o testamento do grande artista, imaginado por seu discípulo. Vocês entendem por que estou em dúvida quanto a rever o deserto, por mais suntuoso que seja, de David Lean?

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