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O dólar como marca, Zizek e a degeneração nazista

Luiz Carlos Merten

17 de maio de 2020 | 18h54

Estou ligado no Canal Curta! Emendei o capítulo 2 do Guia Pervertido da Ideologia de Slavoj Zizek com o documentário de José Mariani sobre o pensamento vivo de Maria da Conceição Tavares. O que é essa mulher? Como se desenvolveu sua potência performática e intelectual? Maria da Conceição explicando como e por que, no mundo da economia neoliberal, estruturado por e para as grandes corporações, o dólar virou uma marca, como a Coca-Cola? Seu sonho sempre foi ver o Brasil tornar-se uma democracia multirracial. Maria da Conceição chegou aos 90 anos, e agora a chance de que isso ocorra, com essa gente, nunca foi menor. Todo dia a gente ouve e vê e ouve na TV as histórias da desgraceira que se abateu sobre o mundo com a Covid. No Brasil, temos, infelizmente, nossas especificidades para piorar as coisas. Tomei um choque vendo que não sei quantos milhões de pessoas não conseguem o auxílio emergencial porque não existem, juridicamente. Uma garota linda, com um olhar doce, mas se fosse feia e irada seria a mesma coisa. Ela não pode estudar nem trabalhar porque não tem certidão de nascimento, e consequerntemente, não tem RG. E por que não tem? Porque a mãe também não tinha, e por aí vai. É mais assustador que qualquer filme de terror que tenha visto na vida. Dá para metaforizar. No Frankenstein de James Whale, Boris Karloff, como o monstro, tentando fazer amizade com a menina, termina por atirá-la na água, e ela, presumivelmente, morre afogada. Não é o que está sendo feito com essa garota que não possui condições de provar que existe, mesmo estando ali, de carne e osso, na frente da gente? Zizek debruçou-se, no episódio que vi hoje, sobre o casal como a unidade básica da construção da ideologia de filmes como o Titanic de James Cameron. Ele ridiculariza o marxismo hollywoodiano do filme, a divisão de classes nos diferentes planos do transatlântico. Kate Winslet promete fugir com Leonardo DiCaprio quando chegarem a Nova York, mas, como integrante da classe alta, ela o vampiriza e dispõe de seu corpo, soltando-o para afundar, após o naufrágio, quando chega o socorro. Não conhecia – conheço – o soviético A Queda de Berlim, de Mikheil Chiaureli (parei para ver quem era o diretor) sobre outro casal durante a 2.ª Guerra e como supera as dificuldades para se rreunmir sob a égide do camarada Stálin. O filme de 1950 é considerado um clássico fo realismo socialista. Zizek e o militarismo – cenas de Se…, de Linday Anderson, sobre o qual escrevi ontem. De Nascido para Matar/Full Metal Jacket. Stanley Kubrick e a (de)formação de seus soldados na academia militar do sargento Hartman. Os cantos obscenos do treinamento. O que fala em arrebentar a boc… das vietnamitas. Até que ponto a gente consegue se manter lúcido, mesmo com autores como Kubrick, face a esse bombardeio ideológico contínuo a que somos submetidos. Há pouco, quando havia começado a escrever o post, parei para ver o episódio de Arquitetura da Destruição, de Peter Cohen. A arte ‘pura’ do nazismo. A aspiração por um mundo perfeito, pessoas belas. A negação da arte decadente. Um ideólogo do conceito de arte do Terceiro Reich comparava imagens de deficientes físicos e mentais, imagens de deformidades, às pinturas e esculturas de artistas modernistas, com o duplo objetivo de criticar a arte corrompida, que devia ser banida e até destruída. Aplicando o mesmo princípio às pessoas, tratadas como aberrações, a solução era a eugenia. Degenerados – sempre penso que, sob o nazismo, não teria tido chance. Parei um pouco para conversar com minha amiga Leila Reis, isolada em São Francisco Xavier. Por mais que o cinema me nutra, as pessoas seguem essenciais. Unidos, à distância.