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O dinossauro, o bebê e El Aurens

Luiz Carlos Merten

05 de novembro de 2012 | 18h51

Fritz Lang ou David Lean? Jean-Luc Godard? Após as minhas matérias na manhã de ontem, aqui no ‘Estado’, corri para o Cine Olido, para assistir na série ‘Cineastas do Nosso tempo’ a ‘O Dinossauro e o Bebê’. Adorei o diálogo entre Lang e Godard, enriquecido por imagens de ‘M, o Vampiro de Dusseldord’ e ‘O Desprezo’ – que passou a seguir -, mas confesso que me causou estranhamento ver em preto e branco as citações ao longa de Godard, cuja cor é esplendorosa. Imagino que a série de Janine Bazin e André S. Labarthe seja em p&b porque a TV francesa assim o era, na época. Terminou o filme e eu corri atrás de um táxi para chegar a tempo de ver na Mostra, no CineSesc, a versão0 restaurada de ‘Lawrence da Arábia’. Cheguei e o clássico de Lean já havia começado. Perdi o enterro e, quando adentrei na sala, Lawrence/Peter O’toole apagava o fósoforo na mão e sobre a chama Lean e seu grande fotógrafo, Freddie Young, vencedor do Oscar, imprimiam a imagem do sol. Que que é o ‘Lawrence’? Não me sentei, assisti de pé, lá no fundo. Dizia para mim mesmo que ia ver só um pedaço, mais um e outro, e fui ficando. O que mais me impressionou é como me lembrava de diálogos inteioros, que ia recitando com Alex Guinness, com O’Toole – e pensar que David Lean inicialmente queria Albert Finney no papel – e com Omar Sharif. O homoerotismo do filme. Na época não se ligava muito para isso, o personagem era gay, passa por uma experiência traumática com o bei turco. Isso sempre foi óbvio, mas ontem fiquei pasmo com a ambivalência dos olhares entre O’Toole e Sharif. El Aurens vai ao inferno do deserto para resgatar o homem que se perdeu – e que matará mais tarde. Sua volta é triunfal e sela o mito entre os próprios árabes. Todo mundo lhe oferece água, ele só aceita a de Ali/Sharif. Todo mundo lhe oferece4 seu leito, eler só aceita o de Sharif. E cai exausto, de bruços. Tudo aparentemente inocente, mas rico em ambivalências e sugestões. E a trilha de Maurice Jarre. Terminei o filme meio dolorido por ter ficado de pé, uma loucura, saí para jantar e voltei para assistir ao vencedor do prêmio do júri, ‘Preenchendo o Vazio’, de Rama Burshtein. Até agora não consigo dizer se gostei. Aquelas ortodoxas que só se definem socialmente pelo casamento, a garota que hesita em se casar com o cunbhjado, após a morte da irmã, para que o bebê do casal permaneça em família. Aquelas disa sem braço só existe como metáfora de uma certa condição feminina, numa sociedade em que a mulher vive pelo e para o homem. Solteira, ela não ‘utilidade’, não sei é a melhor palavra. Depende dos outros para tudo. E o movimento pendular da garota, no desfecho, como se fosse autista? Minha amiga Elaine Guerini amou o filme se bateu para que ele entrasse nas cogitações para o prêmio da crítica. Não a apoiei, porque não tinha visto. Agora que vi, continuaria não apoiando.

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