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O desafio de tudo (?) ver, quando o tempo não para

Luiz Carlos Merten

02 Agosto 2018 | 09h41

Tanta coisa que gostaria de ver, e rever, na Festa do Cinema Italiano. Dogman, Fortunata, Uma Questão Pessoal, o Gianni Amelio, o Silvio Soldini. O bom é que a Festa, como o Festival Varilux, está trazendo filmes com distribuição garantida. Logo-logo estarão estreando. Conversei ontem com o ator Edoardo Pesce e ele confirmou o que me dissera Matteo Garrone em Cannes. Achei impressionante o lugar em que se passa Dogman – o luogo. Garrone descobriu-o quando filmava Gomorra. O novo filme nasceu muito da desolação daquela paisagem. Quase não foi preciso intervenção no lugar. Não tem nada a ver, mas me lembra Tomas Milián levando a mulher, em Identificazione di Una Donna, de Michelangelo Antonioni, e desculpando-se por serem lugares ermos, solitários, até podres. Ele faz um diretor dentro do filme e explica que se trata de uma deformação profissiional. Pesce me disse que Garrone começou a montar o elenco a partir dele. É um cara doce, faz aquele tipo brutal. Atores! Precisou ganhar massa física, muscular. E Garrone, tomando Pesce como eixo, passou a buscar o seu protagonista. Testou vários até chegar a Marcello Fonte, um naturale, não profissional, que arrebatou o prêmio de melhor ator em Cannes. Gosto muito dos filmes do japonês Hirokazu Kore-eda, mas não estou seguro de que Shoplifters, com o qual ele finalmente ganhou a Palma de Ouro, em Cannes, seja um grande Kore-eda. É bom, mas havia filmes melhores, que o júri resolveu ignorar. Gostei muito de Leto, cujo diretor, Kirill Serebrennikov, permaneceu preso na Rússia e, dessa forma, não participou do tapete vermelho nem da coletiva. Serebrennikov é uma das vítimas do despotismo do czar Vladimir Putin, mas quem liga para isso? Gostei mais ainda do turco Nuri Bilge Ceylan, que me dá a impressão de escrever roteiros como se fossem livros, ou peças de teatro. Diálogos intensos, verborrágicos, intermináveis. E aí ele tira essas peças de um palco imaginário ou imaginado. Com seus atores, constrói o tempo, o espaço e o milagre se faz – filmes, grandes filmes como The Pear Wild Tree, ou será The Wild Pear Tree? O júri presidido por Cate Blanchett ignorou Ceylan. E daí? Não foi a primeira vez nem será a última que júris buscam soluções consensuais. Por falar no tempo, toda semana estreiam muitos filmes, a Festa do Cinema Italiano emenda com o Festival Latino, no domingo começa o Festival Judaico, e logo o Árabe, e Gramado. O desafio do jornalista de cinema é arranjar tempo para tudo. Só o Rio anunciou ontem que o festival está sendo adiado para novembro, mas sai. Era motivo de preocupação, dado o caos administrativo, humano e social que a Cidade Maravilhosa está vivendo. Enquanto isso, a Mostra anda. Orlando Margarido e Neusa Barbosa, que participam do processo de seleção, contam que estão vendo muita coisa, e boa.