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O debate sobre ‘No Intenso Agora’

Luiz Carlos Merten

28 Abril 2017 | 11h43

Ainda não saí de casa, mas, pelo visto, a greve geral funcionou. Está um silêncio que nem aos domingos nesse Pinheiros, o bairro. É a forma de protesto das centrais trabalhadoras. Abri o site do Estadão para ver como anda o movimento e, logo depois da manchete, basta descer um pouco o mouse para encontrar que o desemprego foi recorde no primeiro trimestre. Como? Com todo o sacrifício que se exige do trabalhador, em nome da modernidade – a velha legislação e o rombo da Previdência seriam os entraves ao desenvolvimento -, a coisa, um ano depois do golpe parlamentar (admitido pelo próprio Temer em entrevista e incentivado pela elite), vai de mal a pior para o pobre? Não sou analista de economia. Só tento entender. A paralisação deve atingir a Conferência Internacional do Documentário, no É Tudo Verdade, que programou, às 2 da tarde, a mesa para debater No Intenso Agora com o diretor João Moreira Salles e o montador Eduardo Escorel. No Intenso Agora foi alvo de um duro ataque na capa do suplemento da concorrência, na edição de ontem. Excepcionalmente, vou dar nome aos bois. Sérgio Alpendre esculhamba o filme e o autor. Acha a produção de João medíocre, exceto Notícias de Uma Guerra Particular, diz que não existe filme que divida mais que Santiago. Em números: 90% amam, e eu estou na cabeça desses 90% – é meu melhor documentário brasileiro, à frente de Viramundo, Edifício Master, Jogo de Cena, Notícias de Uma Guerra Particular, Pitanga, Wilsinho Galileia, Divinas Divas e só então vem o Cabra Marcado, pela importância) -, 10% odeiam e o Alpendre deve estar à frente deles. Creio, honestamente, que No Intenso Agora deve dividir muito mais. Amir Labaki diz que será, ou já é, o filme brasileiro do ano. Deve estrear em junho. João não filmou nada. Usa os filmes domésticos que sua mãe fez durante uma viagem à China, nos anos 1960, encantada com os jovens revolucionário do grande timoneiro Mao. A partir daí João busca imagens de movimentos revolucionários naqueles anos transformadores. Maio de 68 em Paris, a resistência ao golpe militar no Brasil etc. Acostumamo-nos tanto a ridicularizar, via nouvelle vague, o General De Gaulle – herói da 2.ª guerra e o cara que disse que o Brasil não era (é) um país sério -, que espero não ser considerado reacionário se disser que nada me impressionou mais em No Intenso Agora que uma fala dele. (Estou me sentindo o Burt Lancaster, alter ego de Luchino Visconti em Violência e Paixão, quando o ‘Professore’ grita ‘Non sono um reazionario’). Em pleno maio, os estudantes nas ruas, a central trabalhadora da França aliou-se ao governo para acabar com o movimento. Por que? A central não confiava nos riquinhos, os futuros patrões… De Gaulle, vitorioso mas com cara de derrotado, foi à TV. E, no filme, adverte contra o risco do consumismo e o vazio pós-revolucionário. Em 68! A propósito, os 50 anos do ano que não termina nunca serão o tema da retrospectiva do É Tudo Verdade do ano que vem, não é, Amir? Acho o material riquíssimo, mas confesso que minha adesão a No Intenso Agora oscila. Em algumas horas penso que gosto mais – ou menos – do filme. O problema é a mãe. Imagino que seja doloroso para um filho falar sobre o suicídio da mãe, e a de João se matou. Mas então ele não fizesse o filme. Fez, corajosamente, apaixonadamente. João não mente em No Intenso Agora, mas omite. Fala de outros suicídios, assassinatos. Na China, entre aqueles jovens, sua mãe foi tão feliz. Ettore Scola, sempre – nós que nos amávamos tanto. Nós que amávamos tanto a revolução. Se João tivesse assumido e verbalizado a morte da mãe, seria outro filme? Acho que sim. Gostaria mais? Incondicionalmente, acho que sim. Li por cima a crítica do Alpendre. Ele termina criticando os que desistiram da revolução e estão com os bolsos cheios de dinheiro. Refere-se à fortuna dos Moreira Salles? Aos políticos da Lava-Jato, que um dia foram idealistas? O debate sobre No Intenso Agora está recém começando. Acho que Amir Labaki está certo. Vai ser o filme brasileiro do ano, como Aquarius, denunciando o golpe admitido pelo beneficiário – Temer -, foi o do ano passado.