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O crítico de cinema volta ao teatro/Strindberg, pelo Tolentino

Luiz Carlos Merten

12 de janeiro de 2020 | 21h56

Comecei o ano bem no teatro. E também com uma interrogação – Gabriel Villela alguma vez montou Strindberg? Creio que não e até procurei o livro sobre ele, Edições do Sesc, mas sabe-se lá em qual pilha está escondido na minha casa. Gabriel não é muito chegado aos psicologismos, embora eu ouse afirmar que, a pedido dele, Dib Carneiro escreveu uma adaptação do ‘nosso’ Strindberg, Lúcio Cardoso – Crônica da Casa Assassinada. Strindberg, o próprio, permanece um território de Eduardo Tolentino. Encontrei-o na entrada e Tolentino me disse que Ingmar Bergman montou a peça como rádio-teatro na Suécia. O texto não poderia ser mais sucinto. Com os silêncios, dura uma hora – cravada. Cenas de um casamento. O marido artista, a mulher, o amigo. E mais – o pai invasivo, a mãe e uma agregada que o filho beija e o pai deseja. E se o triângulo, apenas subentendido, se tornar real? Chama-se Brincando com Fogo. Sexo, amor e traição, tudo parece perfeitamente nos limites, mas brincar com fogo tem seus riscos. Conheço esse filme, até na vida. Há tempo de amar, tempo de esquecer, segundo Richard Brooks – Happy Ending. Há tempo de amar, e de odiar, segundo Strindberg. O pai comunica-se por provérbios, o que me fez lembrar os contos morais, e as comédias e provérbios, de Eric Rohmer. A montagem é tão simples quanto engenhosa. Na boca de cena, Tolentino cria o cenário de um estúdio. Ao fundo, cortinas transparentes que cumprem diferentes funções. Tanto podem representar outros cômodos da casa – ou o jardim – como os planos da imaginação e do inconsciente. Houve um tempo recente em que o antipetismo baniu o vermelho, reabilitado primeiro por José Fernando Peixoto de Azevedo em Mãos Sujas (Jean-Paul Sartre) e agora pelo Tolentino. Strindberg! A cena da consumação do ‘crime’ – o beijo – me pareceu um escândalo estético. Palco na penumbra, só aquele vermelhão cintilando. Tolentino superou-se. O elenco é brilhante, mas Bruno Marchesi, como o amigo, já desponta – no primeiro espetáculo do ano – como alguém muito especial. Gostei demais de Brincando com Fogo. Strindberg pode ser mais considerado e até ser mais dramaturgo em textos como Pai, Senhorita Júlia e O Sonho, mas essa peça, que Tolentino definiu como ‘de câmara’, me pareceu uma joia preciosa. Estou desistindo de ir ao Santiago a Mil. Tenho compromissos em São Paulo até quinta – amanhã tem anúncio do Oscar, na terça haverá o debate Estado do documentário sobre Adoniran Barbosa no Belas Artes. Para incentivar minha permanência, teremos no fim de semana que vem o prometido (pelo secretário Alê Youssef e o prefeito Bruno Covas) festival de peças proibidas. E tenho de encaixar em algum momento a nova montagem de Ivan Andrade. Dos Prazeres baseia-se num original de Gabriel García Márquez, adaptado por outro Ivan, Marsiglia, no Sesc Vila Mariana. Gostei do Albert Camus do Ivan, encenado comme il faut – O Mal-entendido. Vamos ver agora o seu realismo mágico. Dos Prazeres é sobre mulher, Maristela Chelala, que prepara o próprio funeral.

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