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O crítico de cinema vai ao teatro (mas dessa vez não deu)

Luiz Carlos Merten

06 Novembro 2018 | 00h37

Dib Carneiro foi quem inventou a rubrica. Nesta segunda, até que tentei – ir ao teatro. Kika Freire me chamou e fui com ela ver Dogville. O teatro é o Clara Nunes, no Shopping da Gávea. Um horror. Sentamos no balcão. A balaustrada é de vidro, que dava mais ou menos na cara dos atores e produzia um efeito de distorção. Por questões de segurança, as escadas são iluminadas e refletem no vidro. Como é possível ver uma peça desse jeito? O narrador, de cara, adverte. Por mais que (pensadores) assinalem a diferença entre o que é verdadeiro e o que é falso, às vezes as coisas se misturam tanto que podem ser verdadeiras e falsas (ao mesmo tempo). Com todos aqueles reflexos, a fala ganhou outro sentido que talvez não fosse o pretendido pelo diretor Zé Henrique de Paula. Bacharel em arquitetura e urbanismo, cenógrafo, ele possui concepções muito interessantes de espaço, que aplicou em Urinal e Pacto. ‘Grace’, a personagem de Nicole Kidman no filme de Lars Von Trier, é Mel Lisboa, que Gabriel Villela reinventou em Boca de Ouro. Dogville, o filme, tem aquela concepção espacial muito particular. Não é ‘realista’. Os lugares, casas, ruas, são demarcados por riscos no chão. A cenografia de Bruno Anselmo buscou um efeito correspondente. Gostei da forma como isola os personagens – são 16 atores em cena, 16! Muito bom. Mas o teatro, digo, a sala não ajudou. Saí no meio porque estava me irritando, não porque não estava gostando. Vou tentar ver de novo, sentando na plateia, quem sabe. Aproveito para falar sobre A Casa Que Jack Construiu, o novo Lars Von Trier, que esteve na Mostra, já estreou em São Paulo e está no Festival do Rio. Quando vi o filme em Cannes, em maio, fiquei desconcertado. Não sabia se tinha gostado. Acho que me decidi quando vi o título da crítica de meu colega Luiz Zanin no C2. Algo como ‘sem compaixão, a casa fica vazia’. Conversamos sobre isso, em Cannes, Lars e eu. Desculpem, pode parecer que sou metido. Lars diz que o cinema glamouriza a figura do serial killer e, em geral, cria antagonistas para humanizar a figura. Ele queria refletir sobre a América de (Donald) Trump. Matt Dillon mata, mulheres principalmente. Com requintes de crueldade. Compaixão? Só se fosse pelas vítimas. A casa é vazia porque tem de ser. Não podemos ser ternos com aqueles que querem nos destruir.