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O crítico de cinema vai ao teatro – Estado de Sítio!

Luiz Carlos Merten

17 Novembro 2018 | 01h24

Estou voltando do Sesc Vila Mariana, onde assisti ontem à montagem de Gabriel Villela da peça de Albert Camus, Estado de Sítio. Encontrei Monique Gardenberg na saída. Maravilhosa! Paraíso Perdido é um dos grandes filmes brasileiros do ano. Desci a Rua Pelotas e fui comer no boteco na esquina da Tutoia. Depois, tive de caminhar um pouco até conseguir pegar um táxi. Passei pelo (Hotel) Pestana São Paulo. Ali entrevistei Fábio Barreto, por Lula – Filho do Brasil, que defendi, o filme, contra tudo e todos. Bateu-me uma coisa ruim. Lembro-me que, quando o Fábio teve o acidente que o deixou em coma, recebi um monte de mensagens no blog – naquele tempo as pessoas podiam comentar. E eram mensagens de ódio, que invocavam Deus e a Bíblia para dizer que ele estava tendo o castigo que merecia por haver feito seu filme. E me caiu a ficha, agora há pouco. O ódio é anterior ao presidente eleito. Os milhões que o elegeram realmente esperavam pelo Messias – ou pelo Anticristo? Estado de Sítio – numa cena da peça, brigam o juiz e a mulher. Ele a chama de adúltera. Cadela! Ela retruca – Juiz! Virou ofensa. O teatro veio abaixo e a peça foi aplaudida em cena aberta. O juiz todo mundo sabe quem é. O Partido do Judiciário, como diz CartaCapital, só engana quem quer ser enganado. Por motivos que não cabe enumerar, afastei-me de Gabriel Villela ao longo do ano. Nunca deixei de admirá-lo. Isso só significa que não acompanhei o processo criativo de Estado de Sítio. Deduzo sobre suas intenções a partir do que vi. O espetáculo é, plasticamente, deslumbrante. Bonito até demais. A Peste e sua secretária, a Morte, vêm revestidas daquele barroco caro ao diretor – barroco mineiro, mexicano? Confesso que talvez preferisse a secura de Ingmar Bergman – o jogo de xadrez do Cavaleiro com a Morte de O Sétimo Selo – à exuberância de Vida (A Vida É uma Festa), que Gabriel pode nem ter visto, mas cujo espírito impregna a montagem. Nos últimos anos, ele montava duas, três peças ao ano. Sua montagem anterior remonta a dezembro do ano passado – Hoje É Dia de Rock, de José Vicente, no Teatro Guaíra, na República de Curitiba. Estava lá, prestes a ser atropelado pelo terremoto que desestabilizou minha vida em 2018, mas não me dava conta. Estado de Sítio estreou nos anos 1940, quase como um presente de Albert Camus para Jean-Louis Barrault. Cadiz, na Espanha, sitiada pela peste. O totalitarismo que afeta o tecido social – uma metáfora da Guerra Civil espanhola, e do franquismo, mas no programa Gabriel diz que seria fácil permanecer na condição de alegoria. O risco seria reduzir a poética de Camus a um ‘alerta político’, o que talvez resultasse num espetáculo panfletário. Posso dizer agora – falaram-me muito mal dessa montagem de Estado de Sítio. O espetáculo seria ‘chato’, para dizer-se o mínimo. Posso até ter tido alguns incômodos na finalização das cenas, nada que a continuidade do espetáculo não ajude a resolver. Gabriel é um antinaturalista, brechtiano de carteirinha no que tange à interpretação. Seus atores dizem lindamente o texto na boca de cena, mas saem como se batessem as tamancas, e isso me pareceu um tanto estranho. A grande contribuição do diretor ao debate ‘camusiano’, e ao entendimento do Brasil – fora a piada do juiz -, diz respeito a um deslocamento. O medo, a tragédia da separação – de Diego e Vitória – atravessam o texto, mas nessa montagem, ou assim me pareceu, o eixo é o Nada, que questiona tudo, vida, morte, instituições, na perspectiva do homem comum. Existencialismo ou absurdismo? Todo mundo canta superbem, e fala (sem microfone nem ponto, viu Regina Duarte?) para todo o teatro ouvir – graças a suas ‘encelências’ Babaia e Marco França -, mas o destaque absoluto é, de novo, como em O Boca de Ouro, o extraordinário Chico Carvalho. Admito que cansei um pouco, e dei umas olhadas no relógio, perto do fim, mas o maior elogio que posso fazer a Estado de Sítio é dizer que já estou louco para ver de novo. Não é espetáculo cuja inteligência possa ser absorvida de uma só vez.