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O crítico de cinema vai ao teatro (e escolhe seus melhores do ano)

Luiz Carlos Merten

25 de dezembro de 2018 | 10h23

Preciso fazer uma correção. Quando espinafrei a turma de teatro da APCA – gente mais sem noção, credo -, creio ter cometido um erro. Não foi meu primeiro nem será o último, mas acho que eles premiaram PI – Panorâmica Insana e eu confundi com Colônia, e por isso escrevi que, em matéria de aula-espetáculo, era mais a Mariana Lima, Cérebro-Coração. Já disse que ia escolher meus melhores de teatro no blog, porque tinha certeza de que ninguém, dos alternativos ao mainstream, ia premiar Navalha na Carne Negra. Não deu outra. Ignorada pela APCA, a montagem também ficou fora dos Melhores do Ano do Divirta-se, o guia do Estado. Quatro críticos escolheram três montagens, cada. Maria Eugênia Menezes, que acaba de ser mamãe – parabéns! -, abre suas escolhas no Divirta-se com Panorâmica Insana e a justifica dizendo que o talento criativo da diretora Bia Lessa explode a cena contemporânea sem negligenciar o prazer do espectador. Entrou prazer e eu não discuto mais. Cada um goza como pode, ou gosta. Com o teatro da Bia Lessa eu não gozo nem f… O Grande Sertão dela, que já havia sido queridinho da crítica no ano passado, só me emputeceu porque tornou mais difícil a encenação de Guimarães Rosa por quem entende, Gabriel Villela. PI é tão nulo quanto. Dramaturgia superficial, para não dizer pobre, recursos de instalação (mas a ‘onda’ final, felliniana, foi bonita, há que reconhecer.) Onde mesmo está a mise-en-scène? O curioso é que os críticos da APCA e os do Divirta-se viram anos diferentes no palco de São Paulo. No suplemento do Estado, ninguém lembrou a montagem de Arthur Miller, Panorama Visto da Ponte, por Zé Henrique de Paula, que venceu a APCA (e Sérgio Mamberti ainda ganhou o grande prêmio da crítica). No Divirta-se, foram lembrados Colônia, Refúgio e Love Love Love. Pois aqui vão os meus destaques. O crítico de cinema foi ao teatro, como diria Dib Carneiro, e escolheu… Tãtãtãtã!
Navalha na Carne Negra. O mais belo, ousado, conceitual e visceral espetáculo do ano. Nesse 2018 marcado pela discussão da diversidade – de gênero, raça, etc -, só não tendo nenhuma noção de timing, que um crítico deve ter, seria possível ignorar o dispositivo cênico de José Fernando Peixoto de Azevedo e o genial elenco da montagem dele. Ao incorporar outras mídias – captação de imagens ao vivo -, ele, sim, explodiu a cena contemporânea. E ainda tivemos Lucélia Sérgio como Norma Sueli. Plínio Marcos, onde quer que esteja, deve ter amado.
Estado de Sítio. Já que escolhi a melhor atriz, o melhor ator foi Chico Carvalho, o Nada, na releitura de Alberto Camus por Gabriel Villela. Precisei ver a montagem duas vezes para captar toda a sua riqueza e sutileza. Em princípio, nada mais avesso ao barroco mineiro de Gabriel do que o absurdo da existência de Camus e a revolta do indivíduo como reação a esse absurdo. Gabriel ultrapassa o barroco, rumo ao gótico. Talvez seja a montagem recente mais sombria dele. E o ‘abrasileiramento’ – do texto, da encenação – é brilhante. Cereja do bolo (me perdoem, Cláudio Fontana e Elias Andreato), Chico. Gabriel considera Godot, de Samuel Beckett, Hamlet, de Shakespeare, e Édipo, de Sófocles, as três pedras angulares da dramaturgia. Já montou o Godot, quer fazer os outros dois. E me disse que Chico Carvalho será seu príncipe da Dinamarca. To be or not tupi. Mal posso esperar.
O Quarto Estado da Água. Se não fosse o Chico de Estado de Sítio, os atores dessa montagem poderiam ser os melhores do ano. Kiko Pissolato, Herbert Richers Jr. e Anderson di Rizzi. A discussão visceral sobre gêneros. A masculinidade em 2018. Com dramaturgia de Flavio Cafiero e direção de Bia Szvat, o espetáculo atingiu a proposta dessa outra (e melhor) Bia, ‘buscar algum frescor na forma de fazer teatro’.

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