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O crítico de cinema vai ao teatro (com um ‘prólogo’): Casa Vazia

Luiz Carlos Merten

29 Outubro 2018 | 09h48

Coloquei o Ferdinando, o boneco, aqui na mesa, em frente ao laptop, e ele me olha com aquela carinha, os olhos de espanto. É o Ferdinando filhote da primeira parte da animação de Carlos Saldanha. Ando carente, só o sexo não basta. Deveria adotar um cão, mas o pobrezinho não iria sobreviver ao meu estilo de vida. Fico com o Ferdinando e a edição bilíngue de Platero e Eu, que agora me acompanha. Para equilibrar tanta ‘ternura’, o (Georges) Bataille também me segue. História do Olho. A atração pelo ‘sujo’. Fui ver ontem, finalmente, Casa Vazia. Há tempos estava para ver a peça em cartaz no Teatro Alfredo Mesquita, desde que li a crítica (mini) do Nunomura na Carta Capital. Nunca dava. Os guias simplesmente ignoravam a montagem. Entrei ontem no site do teatro e era o último dia. Lá fui eu. Dramaturgia e direção de Carolina Barres, duas atrizes em cena discutindo a ‘relação’. Na plateia, um público bem razoável – para um dia daqueles. Muitas duplas de garotas. Pares, casais. As que sentaram na minha frente viram o espetáculo abraçadas e riam em momentos pontuais, que não me pareciam engraçados, o que me fez deduzir que era cumplicidade. Ana e Veri. Foram felizes, a relação esvaziou-se. A prosa é comum e me lembro que o Nunomura destacou as influências de Zygmunt Bauman, O Amor Líquido, e da trilogia ‘Antes’, de Richard Linklater. Não senti muito, mas dava para ver que a plateia feminina estava tocada, e se identificava com falas que talvez fossem muito específicas, e por isso não me diziam tanto. Não vejo problema nenhum nisso. Gostei de ter visto. É um belo espetáculo, sucinto – 50 min -, e com uma cenografia espetacular. É o melhor de tudo. Há um crédito para o cenógrafo Massad3d, mas imagino que seja uma criação conjunta dele com a diretora e dramaturga. Começa com o palco cheio de caixas, que vão desaparecendo à medida que a relação se esgota e termina. Termina? Tem uma frase muito interessante quando Luiza Mariani e Júlio Andrade – os personagens, claro – terminam a relação em Todas as Canções de Amor. Acho que é ela que diz – “E agora começa a saudade.’ No filme de Joana Mariani, no de José Alvarenga Jr., Intimidade entre Estranhos, casais iniciam e terminam relações e em ambos, como na peça de Carolina Barres, as caixas estão ali, ocupando espaço – e fadadas a desaparecer. O transitório, o efêmero e o definitivo. Todos os filmes de amor de François Truffaut, Jean-Pierre Léaud em Beijos Proibidos (Roubados, no original). A boa nova – no final, uma das atrizes, estou aqui com os dois nomes, Angelina Trevisan e Samya Peruchi, mas não consigo identificar qual delas – falou da dificuldade que foi levantar o espetáculo. A produção independente foi financiada, pelo que entendi, coletivamente. E não terminou ontem, é a nova. Casa Vazia vai para o Teatro Augusta, acho que já a partir do dia 2. (Gostei do Teatro Alfredo Mesquita, ao qual nunca havia ido. Dib Carneiro o frequenta regularmente por causa de infantis, mas não me lembro de nenhum espetáculo adulto que tenha visto ali. Sair daquele local foi uma aventura. Atravessei pontes e, sob uma garoa que molhava, só fui conseguir condução depois de caminhar muito, na Tiradentes. O metrô Armênia. A cidade, naqueles lados, estava fantasmagórica, calada, sem nenhuma comemoração, que ficou concentrada na Paulista. Só um moleque, entregador, passou de bicicleta e me provocou – ‘E aí velho, foi de Bolsonaro?’) O título. Casa Vazia evoca um grande filme de Kim Ki-duk que, na época, me rendeu uma bela conversa de cinema com o Hector (Babenco), que também o amou. Por falar nisso, tem um Kim Ki-duk nessa Mostra. Até me esqueci. Ainda conseguirei vê-lo?