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O crítico de cinema vai… ao cinema! O neon realismo do Doutrinador

Luiz Carlos Merten

17 Novembro 2018 | 09h45

Havia visto Kiko Pissolato no teatro, quando Paloma Bernardi e ele fizeram os papeis de Maria e Tião na remontagem de Eles não Usam Black-tie. Minha referência é sempre o filme de Leon Hirszman, até porque nunca vi outra montagem do texto de Gianfrancesco Guarnieri. E, assim, lá estavam Kiko e Paloma nos papéis de Carlos Alberto Riccelli e Bete Mendes. Ele fura a greve e a chama para partir com ele. Paloma/Maria diz que sempre quis sair daquele lugar, mas não daquele jeito. O mesmo sentimento de Samantha Eggar, recusando a proposta de Richard Harris no desfecho de The Molly Maguires, Ver-TE-Ei no Inferno. Às vezes tenho vontade de escrever outro livro, a minha viagem pessoal pelo cinemas brasileiro e mundial. O filme de Martin Ritt com certeza ocuparia um capítulo. Tião não trai só a classe. Trai o pai, a mãe, perde a mulher. Por mais que a nova versão crie um lugar da fala para ele – é agora o personagem mais contemporâneo -, continua sendo o feijão podre que é preciso catar fora. Kiko tirava a camisa em cena. O nascimento do Doutrinador? Não sei por que perdi a cabine e a rodada de entrevistas do longa que Gustavo Bonafé, de Legalize Já!, adaptou da HQ de Luciano Cunha. Não estava bem no dia, emendei com o Festival do Rio, não sei. Finalmente assisti ontem a O Doutrinador, me parece que já em fim de carreira, numa sala do PlayArte Marabá. Cinicamente, poderia dizer que deveria ser adotado como o épico do bolsonarismo. O cara mata políticos corruptos, como o presidente eleito e seu clã prometeram fazer. Explode o Congresso. É um (anti)herói, digamos, perigoso. Mas, sendo o Doutrinador um agente das forças especiais – Miguel, que sofreu uma grande perda e parte para o V de Vingança (o filme de Zack Snyder foi fonte de inspiração, com certeza) -, acho importante destacar que o diretor cria um contraponto à ação de Miguel/Doutrinador, e é seu parceiro na polícia, que reza pela cartilha da lei (como agora, eleito, Bolsonaro promete seguir a Constituição). Kiko Pìssolato, o nome não nega, tem physique, rola e temperamento dramático para bancar o anti-herói fodão. Xiii, saiu. Escrevi. Samuel de Assis – fui pesquisar quem fazia o parceiraço, Edu – é tão bom quanto. Dão credibilidade ao drama e às cenas de ação. Marília Gabriela, espero que não se ofenda, fez botox (é assim que se diz?) no mesmo médico de João Dória. Vão terminar ficando iguais. Para arrematar, ainda estou ruminando O Doutrinador. Fascista? Era como chamavam o Zack Snyder, por 300. O Doutrinador é muito bem feito. Ressuscita a estética de neon, o neon realismo de Chico Botelho, com a sua Cidade Oculta, em meados dos anos 1980. Gustavo Bonafé escancara sua cidade oculta e faz de São Paulo a cidade nua que expõe a questão do poder e do dinheiro no Brasil. Exagera, com a liberdade que dá a ficção. Explodir o Congresso, só nas urnas, o que, pensando bem, foi o que fizeram os eleitores, mas renovaram mal, fazer o quê? Helena Ranaldi aparece pouco, mas seu belo rosto compassivo cumpre uma função dramática. Carminha Botelho, que fez a assessoria do filme e me dizia para ver O Doutrinador, vai amar esse post tardio. Paguei para ver (o filme). Estou pensando em pagar de novo, o problema é arranjar uma brecha nesses tempos de Mix Brasil. Planos como aquela tomada de cima do carro do herói iluminando o caminho noturno, quando ele entra no beco que levará à sua toca, são, talvez, a mais perfeita equivalência dos quadrinhos no cinema que já vi. Storyboard puro. Kiko Pissolato não é mole, mas Gustavo Bonafé também não é.