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O crítico de cinema no teatro – Tchekhov É Um Cogumelo!

Luiz Carlos Merten

27 de abril de 2019 | 10h02

Tempos duros se aproximam – como se, até aqui, fosse refresco. Os exames de sangue não foram bons, confirmaram suspeitas cada vez maiores. Na segunda sai a tomo e faço uma punção, mas o novo médico, que trabalha com a hipótese inevitável de uma nova prótese para substituir a atual, não me ilude – diz que será mais demorado, mais doloroso. Ó Céus! Estou tentando ficar zen, não me vitimizar. Já me aconteceu tanta coisa ruim… Reclamar não vai adiantar nada. Volto ao (meu) mantra roseano – Jesus, manso e humilde de coração, fazei meu coração semelhante ao vosso. Augusto Matraga pede-se paciência, mas usa o cipó de arueira para virar o jogo e retomar as rédeas do próprio destino. O terreiro lá de casa/não se varre com vassoura/varre com ponta de sabre, bala de metralhadora… Ontem estava exausto, incusive, ou talvez sobretudo, emocionalmente. Meia-noite, depois do teatro e do jantar, já estava na cama. Fui ver Tchekhov É Um Cogumelo, e confesso que tive uma epifania. O programa adverte – o tempo é a matéria-prima deste espetáculo. E eu viajei no tempo, pelo menos uns 50 anos. A primeira vez que vi Helena Ignez no palco. A Electra de Sófocles, com Glauce Rocha. A jovem Helena ainda era muito crua. ‘Electra, Electra, ishtá lá fora nosso irmão.’ Antônio Abujamra era o diretor. Reencontro agora uma Helena mais grave, mais madura e senhora de si, dirigida por André Guerreiro Lopes, que foi seu ator em Luz das Trevas. Tudo ou Nada, o filho do lendário Bandido da Luz Vermelha. Esculpir o tempo. André, assina direção, concepção e adaptação. As Três Irmãs. Olga, irina e Macha. A estrela guia é o mítico Zé Celso, que André entrevistou em vídeo no Parque do Ibirapuera, em 1995. Na grama do parque, ele lembra uma criação radical do Oficina em 1972. O uso de alucinógenos – Tchekhov é um cogumelo. Ao tempo memória de Zé Celso, superpõem-se o tempo da peça e o da mente. Fragmentos de As Três Irmãs, Helena, Djin Sganzerla e Michele Matalon. Os sonhos do passado, o presente opressivo e a esperança colocada nessa Moscou distante. Impossível? Haverá futuro? André reinventa no palco do Teatro Sérgio Cardoso o Tchekhov alucinógeno de Zé Celso e Renato Borghi. Seu nirvana vem da prática zazen, da base do zen budismo. O próprio André, no início do espetáculo, senta-se, dá os três toques – como no teatro – e nos convida a abrir a mente, sem nos apegarmos aos pensamentos. Um teatro que dialoga com o cinema, a instalação e libera o fluxo de consciência em hora e meia de muito encantamento. Tchekhov ou o sonho por um futuro grandioso que é a volta a um passado perdido, com um perfume de Joyce, ou – considerando-se a quantidade de mulheres criativas no palco – Virginia Woolf. A montagem original é de 2017, não sei porque não a vi. Outros tempos. Amei.

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